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Dívida: Lloyd George versus soviéticos

Nas negociações de Génova, em 1922, Lloyd George, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, e Tschitscherin, chefe da delegação soviética, trocaram argumentos que vale a pena serem conhecidos. As negociações foram inconclusivas. Por Eric Toussaint
Lloyd George
Lloyd George

Numa sessão plenária, Lloyd George deu uma resposta que fala por si:

“A Rússia pode obter ajuda abundante, mas se quiser obtê-la, não pode comportar-se desta maneira, como se propositadamente quisesse provocar e ultrajar os sentimentos, os preconceitos, os sentimentos da vasta maioria das pessoas (…)

Disse preconceitos. Vou citar-vos dois ou três que foram espezinhados no vosso memorando de 11 de maio. Na Europa Ocidental, quando um homem vende mercadorias a outro, existe um preconceito curioso: gosta de ser pago. Mais um preconceito: se um vizinho vem procurá-lo e lhe pede mais uma vez ajuda, é natural que ele responda: 'É sua intenção reembolsar-me? Reembolse-me primeiro o que lhe emprestei'. Se a isto o devedor responde: 'Os meus princípios não me permitem pagar', por muito estranho que isto pareça à Delegação russa, este ocidental está de tal forma repleto de preconceitos que, muito provavelmente, não quererá emprestar novas somas de dinheiro. Não é uma questão de princípio – eu sei o que são os princípios revolucionários – mas fora da Rússia, tenham lá paciência, há estranhas pessoas, com estranhas ideias! E se quiserem fazer negócio connosco, têm de aceitar-nos tal como somos. São ideias que, por assim dizer, se entranharam em nós com o leite materno, que herdámos de sucessivas gerações de gente honesta e trabalhadora, e chegados a este ponto gostaria de advertir a delegação russa que escusa de esperar, nesta rota que vamos encetar em direção à paz final, que abandonemos friamente à beira do caminho os nossos preconceitos. Esses preconceitos, essas ideias, mergulham as suas raízes profundamente no solo da Europa Ocidental. Há milhares de anos que elas estão aí enraizadas. (…) Quando escrevem a alguém a pedir novos montantes de dinheiro, a melhor forma de o obter não consiste certamente em dedicar uma grande parte da vossa missiva a uma dissertação sábia para justificar a doutrina do repúdio das dívidas. Não é essa a via indicada para obter crédito. Talvez seja uma bela doutrina, mas não é diplomática. (…) Para terminar, gostaria de vos implorar, como homem desde sempre favorável à ideia de socorrer essa nobre nação, de lhe pedir, quando vier a Haia, que nunca mais tente espezinhar as nossas ideias ocidentais.”1

A resposta de Tchitcherine:

Depois de deplorar “termos sido impedidos de colocar à Conferência a questão do desarmamento”, respondeu assim a Lloyd George: “O Sr. Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha diz-me que se o meu vizinho me emprestou dinheiro, eu tenho de pagar-lhe, pois bem, a bem da conciliação, estou disposto a aceitar esse ponto, mas acrescento que se esse vizinho irrompeu na minha casa e, depois de matar os meus filhos, quebrou a minha mobília, queimou a minha casa, deve pelo menos começar por restituir o que destruiu.2

Convém recordar que no decurso da negociação sobre a ordem de trabalhos da conferência de Génova a delegação soviética interveio por diversas vezes para que fossem tomadas decisões a fim de organizar o desarmamento geral. A França reagiu de forma violenta, recusando pura e simplesmente agendar esse ponto. Para o Governo francês estava fora de questão a redução das despesas de armamento. É claro que esta orientação estava a mil léguas de distância do povo francês, mas quem estava ali presente era um governo de direita belicista que dirigia a sua agressividade contra a Alemanha e contra a Rússia (já para não falar dos povos colonizados). Em 1921 a França tinha mais uma vez tentado pôr de pé uma aliança com a Roménia (que tinha anexado a Bessarábia, que fazia parte do antigo Império Russo) e a Polónia, contra a Rússia soviética. A França visava declarar, em conjunto com esses países, a guerra à Rússia soviética.3

Por outro lado, a delegação soviética propunha que todas as nações fossem convidadas para a Conferência de Génova, nomeadamente os povos colonizados representados diretamente. As organizações operárias também deviam ser convidadas. A delegação soviética criticou as propostas gerais em matéria de economia.

Tchitcherine declarou que “O capítulo VI do Relatório da Comissão Económica, que diz respeito ao trabalho, devia abrir-se à importância da participação dos trabalhadores na restauração económica da Europa. No entanto, não encontramos uma linha sobre o que seria mais necessário aos trabalhadores, não encontramos qualquer menção a leis protetoras dos operários, além da questão do desemprego; não encontramos qualquer proposta sobre cooperativas, apesar de estas serem um instrumento de primeira ordem para a melhoria das condições dos trabalhadores. É sumamente lamentável que no decurso dos trabalhos da Primeira Subcomissão as propostas relativas às cooperativas tenham sido arredadas.

Mas há mais: o artigo 21, que menciona as convenções da Conferência do Trabalho de Washington, privam essas convenções duma grande parte da sua importância prática, ao consagrarem o direito dos participantes a não as ratificar. Este facto, que a Delegação russa se esforçou por evitar, explica-se pelo desejo de certos Governos, como o suíço, de não adotarem a jornada de trabalho de oito horas. A Delegação russa considera a jornada de oito horas um princípio fundamental para o bem-estar do trabalhador e levanta uma objeção formal contra a possibilidade explicitamente formulada de os Governos não a aplicarem.”4

Face ao malogro das negociações de Génova, as potências anfitriãs e a Rússia acordaram em reunir-se daí a um mês, em Haia, para tentarem chegar a um acordo de última instância. O encontro realizou-se de facto, a 20 de julho de 1922, mas voltou a ser inconclusivo. A França e a Bélgica, desta vez com Washington ausente mas dando-lhes apoio de bastidores, tinham endurecido ainda mais as suas posições.5

Tradução Rui Viana Pereira

Artigo de Éric Toussaint, publicado em cadtm.org. Faz parte da série: Centenário da Revolução russa e do repúdio das dívidas:

Parte 1 : Rússia: O repúdio das dívidas no cerne das revoluções de 1905 e 1917
Parte 2 : Centenário da Revolução russa e do repúdio das dívidas (link is external)
Parte 3 : A revolução russa, o repúdio das dívidas, a guerra e a paz
Parte 4 : A revolução russa, o direito dos povos à autodeterminação e o repúdio das dívidas
Parte 5 : A imprensa francesa a soldo do czar
Parte 6 : Os títulos de dívida russos após o repúdio
Parte 7 : O jogo diplomático à volta do repúdio das dívidas russas
Parte 8 : Em 1922, nova tentativa de submissão dos sovietes às potências credoras
Parte 9: O contra-ataque soviético: o Tratado de Rapallo de 1922
Parte 10. Em Génova (1922), as contra-propostas soviéticas face às imposições das potências credoras
Parte 11. Dívida: Lloyd George versus soviéticos
Parte 12. A reafirmação do repúdio das dívidas é bem sucedida
Conclusão e Epílogo


1 Les Documents de la Conférence de Gênes, Roma, 1922, p. 118.

2 Op. Cit., p. 140.

3 Ver Carr, T. 3, p. 355.

4 Génova, Op. Cit., p. 92.

5 Carr, t. 3, p. 436-440.

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