O sistema bancário europeu está a curvar sob o peso da crise da zona do euro. O olhar está centrado nos bancos espanhóis e no caso particular do Bankia, que tem 10% dos depósitos e precisa de um resgate de mais de 20 mil milhões de euros, mas a realidade é que esta semana a agência Moody baixou a classificação de seis grandes bancos alemães e França, Bélgica e Luxemburgo acertaram garantias estatais entre 10 e 55 mil milhões de euros para salvar o banco Dexia do naufrágio. Em meio a este panorama, a Comissão Europeia impulsiona uma união bancária que centraliza a supervisão, intervenção e garantias do sistema, evitando que seja o Estado – o contribuinte – que acabe por resgatar esse “samba cheio de ilusões” que é o casino financeiro internacional. O problema é: Há tempo?
A União Europeia tem vindo a empurrar a situação com a barriga há meses e mesmo anos. A queda do Lehman Brothers em setembro de 2008 resolveu-se com massivas injeções de capital para alavancar o sistema bancário e programas de estímulo para evitar uma depressão ao estilo do crack de 1929. A segunda fase de crise foi a debacle da dívida soberana que começou com a Grécia no início de 2010 e que arrastou outros dois países - Irlanda e Portugal – que evitaram a moratória ao altíssimo custo de um resgate da Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia).
A dívida soberana é filha do estouro de 2008 e do triplo buraco que produziu nas contas estatais pelo resgate feito aos bancos, pelos programas de estimulo económico e pela queda da arrecadação causada pela recessão. A Espanha, que não tinha défice fiscal, passou a tê-lo. Um impacto similar pode ser visto no resto dos países da União Europeia. Mas o buraco principal permanece sendo o dos bancos. Em novembro de 2011, o Banco Central Europeu (BCE) comprometeu um trilhão de euros em empréstimos com baixíssimas taxas de juros e três anos de prazo para salvar os bancos privados. A soma é quase três vezes o PIB de um país como a Argentina, mas não basta. Esta semana, 96 bancos pediram 119 mil milhões de euros ao BCE, um claro salto em relação aos 51 mil milhões solicitados por 87 bancos na semana passada. E não é o único salva-vidas à mão. Três dos mais importantes bancos de Portugal vão receber 6,6 mil milhões de euros dos 78 mil milhões que o país acordou com a Troika.
Com a economia da zona do euro a um passo de sua segunda recessão – só evitada até agora pela Alemanha – as perspetivas de uma reativação do setor bancário são mínimas para este ano. Os dados divulgados esta semana sobre as quatro principais economias do euro mostram que a doença está alcançando a própria Alemanha que mostrou em abril a sua pior queda de atividade em mais de dois anos. No rebaixamento que fez da nota de sete bancos alemães, a agência Moody assinalou que eles têm uma exposição combinada três vezes maior que seus recursos em caixa.
Segundo a Moody, os bancos alemães ficaram fortemente expostos aos investimentos nos setores imobiliário e naval acumulados durante a bolha e apresentam uma grande vulnerabilidade em relação aos países do sul europeu.
O fantasma de uma reestruturação da dívida bancária de um ou vários países europeus não está muito longe. A eleição na Grécia, dia 17 de junho, a cúpula do G20 no México, dias 18 e 19, a cúpula anual europeia no fim do mês e as manifestações de rua que podem ocorrer no meio disso são o pano de fundo político-diplomático-social da tormenta. Segundo o Financial Times afirmou nesta quinta, a UE estuda um resgate da Espanha com condições extremamente leves, o que seria um grande alívio para o governo conservador de Mariano Rajoy, mas que cairia como uma bomba nos três países regatados com planos de austeridade draconianos: Grécia, Portugal e Irlanda.
Errikos Finalis, membro do Secretariado Executivo da Syriza, a coligação de esquerda grega que rechaça o ajuste e tem grandes possibilidades de triunfar nas eleições, disse à Carta Maior que o seu país não fez mais do que resgatar os bancos. “O dinheiro que a Troika nos empresta fica literalmente dois dias na Grécia. Não serve nem para pagar salários públicos ou aposentadorias. Paga os bancos, o FMI e os juros da dívida contraída”, assinalou Finalis.
A grande pergunta é o que pode ocorrer se essa cadeia for rompida. No momento, a solução tem sido sustentar o edifício com alfinetes. Os remédios paliativos sempre aparecem no último momento para evitar um súbito naufrágio. Enquanto a crise se chamava Grécia, Portugal ou Irlanda essa política servia para ir empurrando o problema. A Espanha é o limite. O ministro de Finanças da Espanha, Louis de Guindos, disse no mês passado que a batalha final do euro será no seu país. Ninguém sabe o resultado do combate, mas, segundo o editorial desta quinta do Financial Times, “não resta dúvida de que o último round está cada vez mais próximo”.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer