The Inkomati (dis)cord pertence a Boyzie Cekwana & Panaibra Canda. Em 1984, a Moçambique de Samora Machel e a África do Sul do apartheid celebram um acordo de paz simbolizado pelo rio Inkomati, um acordo falhado cujo processo serve de pano de fundo a Boyzie e Panaibra para, mais do que "repousar em questões como identidade ou ser africano", o importante "é pensar a nossa existência contemporânea enquanto pessoas, e pessoas com um passado". Prossegue Panaibra que The Inkomati (dis)cord "é pensar os assuntos da nossa realidade atual, os sistemas e as pessoas dentro dos sistemas (...) os pactos de não agressão no mundo de hoje".
A peça, com óbvias fragilidades, é muito bem sucedida no seu propósito: o pensar do humano contemporâneo, o ser político com um passado que precisa de ser revisitado para as alternativas do futuro. Para isso afasta-se das grandes narrativas históricas e políticas para revelar as pequenas singularidades do que, por exemplo, é ser mulher na fronteira entre Moçambique e África do Sul enquanto Samora Machel discursa sobre paz. Revela o que é o problema da tradução entre culturas tão próximas e tão distantes, o problema da estética relacional por excelência.
A escolha desta peça para a abertura do festival foi arriscada, artística e politicamente, mas faz todo o sentido porque, tal como nos diz Panaibra "Para mim é uma clara posição política, é uma decisão enquanto cidadão: nasceste num lugar e não podes mudar o passado, mas podes mudar a tua vida e a dos teus concidadãos."
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