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Chile: os desafios da Frente Ampla

Não seremos um setor relevante só pela resistência, necessitamos transmitir que sim podemos mudar o país e que a Frente Ampla é a via para se chegar às transformações grandes. Devemos organizar a esperança, não só a insatisfação. Por Sebastián Depolo.
Frente Ampla do Chile
Frente Ampla do Chile

Piñera ganhou. Ele mobilizou eleitores para além dos seus apoiantes, somou muito mais que o terço que conseguiu na primeira volta, muitos por medo e outros tantos por genuína adesão a um programa que administra o existente. Ganhou e seremos oposição, tal como dissemos.

Pode-se prever que este segundo governo de Piñera não será fácil, pois enfrentará duas grandes fontes de tensões internas: a primeira será a construção de uma maioria parlamentar que permita aprovar leis pelo Congresso e a segunda são as tensões entre as almas reunidas na própria direita e expressas nas outras candidaturas presidenciais do seu setor. Por detrás de Piñera há várias direitas: a populista (ou autodenominada “social”) de Ossandón, a neoconservadora de José Antonio Kast e a tecnocracia renovada de Felipe Kast. Lidar com isso pode ser fonte de conflitos internos e de problemas externos que suscitem a indignação cidadã, como o retrocesso ou a burocratização excessiva da aplicação da Lei do Aborto nas três causas que foram aprovadas (risco materno, inviabilidade fetal e gravidez fruto de violência sexual), ou medidas extremas como a militarização da região da Araucania e uma política de criminalização das organizações mapuche.

Para Piñera, isso sim, há boas notícias vindas do mundo das finanças: o ciclo de preços dos principais produtos de exportação chilenos enfrentará uma importante melhoria e os mercados reagiram com entusiasmo diante da possibilidade de um governo que lhes será favorável, assim como aos seus interesses. Também conta com a anuência dos principais meios de comunicação, dos seus editorialistas e analistas. É provável que sejam tempos difíceis para as nossas ideias. Diante de um cenário adverso, será difícil ser oposição.

Estou convencido de que se abre um novo ciclo político, com a direita no poder, uma ex-Concertación em crise e com o surgimento da Frente Ampla como novo ator político deste cenário. Como prosseguirá esta história? Dependerá muito do comportamento dos envolvidos e da maturidade e responsabilidade com o futuro. Temos o dever e a responsabilidade de construir um novo tipo de oposição política e social perante essa direita no poder. E temos pouco tempo.

Não podemos fugir à responsabilidade face diante dos desafios que este novo ciclo nos apresenta. Existe uma possibilidade real de que o triunfo de Sebastián Piñera se transforme numa sequência de governo da direita neoliberal, se esta organizar os infinitos recursos com os quais contará em prol deste objetivo. Necessitamos protagonizar o ciclo que se abre em todas as frentes de disputa, a do movimento social, a frente institucional, a frente territorial e a mais importante de todas: a batalha pelo senso comum e a sintonia com as maiorias. Não seremos um setor relevante só pela resistência, necessitamos transmitir que sim, podemos mudar o país, e que a Frente Ampla é a via para fazê-lo. Devemos organizar a esperança, não só a insatisfação.

Necessitamos construir, a partir das nossas ideias, uma maioria social que se expresse politicamente nas disputas eleitorais que virão. Não necessitamos da simples soma de siglas partidárias, nem de potenciais reconfigurações de alianças sem identidade nem projeto próprio, necessitamos que as nossas ideias de mudança, que o nosso programa esteja presente nas conversas cotidianas das famílias chilenas e isso consegue-se com trabalho, presença no terreno e organização, para que a Frente Ampla seja o veículo que possa dar ao Chile um governo verdadeiramente transformador no próximo ciclo presidencial.

Necessitamos desenvolver e aprofundar o nosso programa, que hoje coloca sobre a mesa questões cruciais como o imposto sobre os super ricos e a ideia de justiça tributária para melhorar a nossa vergonhosa distribuição do rendimento, o perdão às dívidas da educação como compromisso de Estado, uma Assembleia Constituinte para definir entre todos e todas as regras do futuro e as políticas públicas participativas na sua elaboração, implementação e avaliação a partir dos territórios. Há muito trabalho para fazer, serão quatro anos intensos e vertiginosos. Chegámos para ficar, e isso significa uma tremenda responsabilidade.

Também é verdade que hoje representamos 20% na disputa presidencial, e quase um milhão de chilenos nas eleições parlamentares, e necessitamos muito mais do que isso para ser governo. Isto só será possível com diálogos sinceros, com paciência e sem exageros, respeitando a autonomia de cada um dos projetos aos quais nos vamos opor e com o peso relativo que alcançámos.

Precisamos de aprender rapidamente a trabalhar com outros que, estando fora da Frente, partilham os nossos objetivos: um novo modelo de desenvolvimento, uma democracia profunda e uma vida segura com direitos sociais universais desde o nascimento até a velhice. Coordenar uma ação conjunta quando for possível, competir com eles quando for necessário. Depende de nós, da nossa capacidade, a tarefa de transformar o anseio de mudançaem ação real e eficaz. Necessitamos dar um passo em frente, organizar-nos e avançar.

Artigo de Sebastián Depolo*, publicado em el Desconcierto, traduzido para português por Carta Maior.


* Sebastián Depolo é sociólogo da Universidade de Concepción e professor em Engenharia Industrial na Universidade do Chile. Dirigente do partido Revolução Democrática, foi chefe de campanha da candidata presidencial da Frente Ampla, Beatriz Sánchez. Segundo a wikipedia, o partido Revolução Democrática foi fundado em 7 de janeiro de 2012 por alguns líderes da mobilização estudantil de 2011, entre os quais se destaca Giorgio Jackson.

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