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Centenário da Revolução Russa: O primeiro capítulo dos 10 dias que abalaram o mundo

Assinalando os 100 anos da Revolução Bolchevique, que teve início no dia 7 de novembro de 1917 (25 de outubro, segundo o calendário juliano), o Esquerda.net publica o primeiro capítulo do relato de John Reed sobre esses dias cruciais que marcaram a alvorada do século das grandes revoluções.
Lenine e Trotsky nas comemorações do segundo aniversário da Revolução Russa, em 1919.
Lenine e Trotsky nas comemorações do segundo aniversário da Revolução Russa, em 1919.

O livro Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, escrito por John Reed e publicado originalmente em 1919, não é bem “uma peça literária”, é antes “um documento frenético, uma reportagem vivida, uma coleção de memórias e de documentos de cada um dos momentos dessa vertigem que foram esses dias do final de 1917, um manifesto de vontade”, escreve Francisco Louçã, no prefácio à mais recente tradução portuguesa desta obra.

Descrevendo “o que se passou sobretudo em Petrogrado, o epicentro da revolução, com alguns testemunhos das frentes de guerra e de Moscovo ou de outros grandes centros, onde se decidia o destino do império czarista e do governo que lhe sucedeu, de Kerenski”, como resume Louçã, a narrativa de Reed sobre a tomada do poder pelos sovietes, naqueles dias cruciais de novembro de 1917, é um documento incontornável.

Publicamos aqui o primeiro capítulo, “Pano de Fundo”, do livro Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, traduzido por Ana da Palma, com capa e ilustrações de Catherine Boutaud, publicado pelas Edições Combate (2016), pp. 31-48.*

Capítulo I

Pano de Fundo

No final de setembro de 1917, um professor estrangeiro de sociologia que visitava a Rússia veio ver-me a Petrogrado. Fora informado por homens de negócios e intelectuais de que a revolução estava a abrandar. O professor escreveu um artigo sobre o assunto e depois viajou pelo país, visitando cidades industriais e comunidades camponesas, onde, para sua admiração, a revolução parecia estar a acelerar. Entre os assalariados e os trabalhadores da terra, era comum ouvir-se falar de «toda a terra aos camponeses, todas as fábricas aos operários». Se o professor tivesse visitado a frente, teria ouvido todo o Exército falar de paz.

O professor estava intrigado, mas sem necessidade, porque ambas as observações eram corretas. As classes proprietárias estavam a tornar-se mais conservadoras, as massas populares mais radicais.

Havia um sentimento geral entre os homens de negócios e a intelligentsia de que a revolução já tinha ido suficientemente longe e durado demasiado tempo, de que as coisas deviam acalmar-se. Este sentimento era partilhado pelos grupos socialistas moderados dominantes, os mencheviques e os socialistas revolucionários oborontsi[1], que apoiavam o governo provisório de Kerenski.

A 14 de outubro, o órgão oficial dos socialistas moderados dizia:

O drama da revolução tem dois atos: a destruição do velho regime e a criação de um novo. O primeiro ato já durou o suficiente. É agora altura de passar ao segundo e de representá-lo tão rapidamente quanto possível. Como disse um grande revolucionário: «Apressemo-nos, amigos, a terminar a revolução. Aquele que a faz durar demasiado, não colhe os seus frutos».

No entanto, entre as massas de operários, soldados e camponeses havia uma forte convicção de que o “primeiro ato” ainda não estava esgotado. Na frente, os comités do Exército andavam sempre em conflito com os oficiais, que não conseguiam habituar-se a tratar os seus homens como seres humanos; na retaguarda, os comités da terra, eleitos pelos camponeses, estavam a ser detidos por tentarem implementar os regulamentos do governo relativos à terra; e nas fábricas os operários[2] lutavam contra as listas negras e os lockouts. Além disto, exilados políticos retornados estavam a ser expulsos do país por serem considerados cidadãos “indesejáveis”; e, em alguns casos, homens que regressavam do estrangeiro às suas aldeias eram perseguidos e presos por atos revolucionários cometidos em 1905.

Face ao descontentamento geral do povo, os socialistas moderados tinham uma resposta: esperai pela Assembleia Constituinte, que há de reunir-se em dezembro. Mas as massas não estavam satisfeitas com isso. A Assembleia Constituinte estava muito bem, mas havia questões concretas pelas quais a Revolução Russa tinha sido feita, e pelas quais os mártires revolucionários apodreciam nas sepulturas do campo de Marte, e que tinham de ser solucionadas, com Assembleia Constituinte ou sem Assembleia Constituinte: a paz, a terra e o controlo operário da indústria. A Assembleia Constituinte fora adiada uma vez após outra – e seria, provavelmente, adiada uma vez mais, até que o povo esteja suficientemente calmo –, talvez para modificar as suas reivindicações! De qualquer modo, oito meses da revolução já se foram e ainda há tão pouco para mostrar.

Entretanto, os soldados começavam a resolver a questão da paz desertando simplesmente, os camponeses queimavam as mansões e tomavam os grandes latifúndios, os operários sabotavam e faziam greve. Claro que, como era natural, os industriais, latifundiários e oficiais do Exército exerceram toda a sua influência contra qualquer compromisso democrático.

A política do governo provisório alternava entre reformas ineficazes e medidas repressivas severas. Um decreto do ministro socialista do Trabalho ordenava que, daí em diante, todos os comités operários se reunissem apenas depois das horas de trabalho. Entre as tropas da frente, os “agitadores” dos partidos de oposição foram detidos, os jornais radicais encerrados e a pena capital aplicada aos propagandistas revolucionários. Foram feitas tentativas para desarmar a Guarda Vermelha. Os cossacos foram enviados para manter a ordem nas províncias.

Estas medidas eram apoiadas pelos socialistas moderados e pelos seus dirigentes no governo, que consideravam necessário cooperar com as classes proprietárias. O povo abandonava-os rapidamente e passava para o lado dos bolcheviques, que exigiam a paz, a terra, o controlo operário da indústria e um governo da classe operária. Em setembro de 1917, estas questões atingiram uma crise. Contra a opinião esmagadora do país, Kerenski e os socialistas moderados conseguiram formar um governo de coligação com as classes proprietárias; e, em resultado disso, os mencheviques e os socialistas revolucionários perderam para sempre a confiança do povo.

Em meados de outubro, um artigo no Rabotchi Put (Via Operária), intitulado “Os Ministros Socialistas”, exprimia o sentimento das massas populares contra os socialistas moderados:

Eis uma lista dos seus serviços[3].

Tsereteli: desarmou os operários com a ajuda do general Polovtsev, derrotou os soldados revolucionários e aprovou a pena capital no Exército.

Skobeliev: começou por tentar aplicar um imposto de 100% sobre os lucros dos capitalistas e acabou numa tentativa de dissolver os comités operários nas oficinas e nas fábricas.

Avxentiev: pôs várias centenas de camponeses na prisão, membros dos comités da terra, e suprimiu dúzias de jornais de operários e soldados.

Tchernov: assinou o manifesto “imperial” ordenando a dissolução do parlamento da Finlândia.

Savinkov: concluiu uma aliança franca com o general Kornilov. Se este salvador da pátria não pôde atraiçoar Petrogrado, foi por razões que não controlava.

Zarudni: com a aprovação de Alexinski e Kerenski, pôs alguns dos melhores obreiros da revolução, soldados e marinheiros, na prisão.

Nikitine: agiu como um vulgar polícia contra os trabalhadores ferroviários.

Kerenski: é melhor nada dizer sobre ele. A lista dos seus serviços é demasiado longa...

Em Helsínquia, um congresso de delegados da Armada do Báltico aprovou uma resolução que começava assim:

Exigimos a expulsão imediata das fileiras do governo provisório do “socialista” Kerenski, o aventureiro político que escandaliza e deita a perder a grande revolução e, com ela, as massas revolucionárias, através da sua desavergonhada chantagem política a favor da burguesia.

O resultado direto de tudo isto foi a ascensão dos bolcheviques.

"Bolchevique", de Boris Kustodiev (1878-1927), pintor e cenógrafo russo.

Desde março de 1917, quando as torrentes de operários e soldados, às portas do Palácio de Táurida, obrigaram a relutante Duma Imperial a assumir o poder supremo na Rússia, foram as massas populares, os operários, os soldados e os camponeses, que impuseram todas as alterações no curso da revolução. Foram elas que derrubaram o ministério de Miliukov; foi o seu soviete que proclamou ao mundo os termos da paz russa. «Nenhuma anexação, nenhuma indemnização e direito à autodeterminação dos povos»; e, em julho, foi o levantamento espontâneo do proletariado desorganizado que, mais uma vez, atacou o palácio de Táurida para exigir que fossem os sovietes a assumir o governo da Rússia.

Os bolcheviques, então um pequeno grupo político, puseram-se à frente do movimento. Em resultado do desastroso fracasso do levantamento, a opinião pública voltou-se contra eles, e as suas hordas sem líder regressaram ao bairro de Viborg, que é o Faubourg St. Antoinei de Petrogrado. Seguiu-se então uma caça selvagem aos bolcheviques; centenas foram presos, entre os quais Trotski, Kollontai e Kamenev; Lenine e Zinoviev esconderam-se, fugindo à justiça; os jornais bolcheviques foram suprimidos. Provocadores e reacionários clamaram que os bolcheviques eram agentes alemães, até as pessoas no mundo inteiro acreditarem nisso.

Mas o governo provisório foi incapaz de provar as suas acusações; descobriu-se que os documentos que provavam uma conspiração pró-alemã eram falsificações. E, um a um, os bolcheviques foram libertados da prisão, sem julgamento, com fiança nominal ou sem fiança, ficando detidos apenas seis. A impotência e indecisão do governo provisório, em constante mudança, foi um argumento que ninguém podia refutar. Os bolcheviques lançaram outra vez a palavra de ordem tão querida das massas – “Todo o poder aos sovietes!” –, e não o faziam por simples egoísmo, pois nessa altura a maioria dos sovietes eram dominados por socialistas moderados, os seus piores inimigos.

Mas, ainda mais importante, construíram o seu programa imediato baseando-se nos anseios simples dos operários, soldados e camponeses. E, assim, enquanto os mencheviques e os socialistas revolucionários oborontsi se envolviam em compromissos com a burguesia, os bolcheviques ganhavam rapidamente as massas russas. Em julho eram caçados e desprezados, mas em setembro os operários da cidade, os marinheiros da Armada do Báltico e os soldados tinham sido quase inteiramente ganhos para a sua causa. As eleições municipais de setembro nas grandes cidades[4] foram significativas; os mencheviques e os socialistas revolucionários obtiveram apenas 18% dos votos, contra os mais de 70% em junho.

Deu-se um fenómeno que deixou os observadores estrangeiros confusos: o facto de os comités executivos centrais dos sovietes, os comités centrais do Exército e da Armada e os comités centrais de alguns sindicatos – especialmente o dos trabalhadores dos correios e telégrafos e o dos trabalhadores ferroviários – se terem oposto aos bolcheviques com a maior violência. Todos estes comités centrais tinham sido eleitos em meados do verão, ou mesmo antes, quando os mencheviques e os socialistas revolucionários tinham uma enorme adesão e atrasaram ou impediram a realização de novas eleições. Assim, de acordo com a constituição dos sovietes de operários e soldados, o Congresso de Toda a Rússia deveria ter sido convocado em setembro; mas o TsIK não fizera a convocatória pelo facto de faltarem apenas dois meses para a Assembleia Constituinte, presumindo que nessa altura os sovietes abdicariam. Entretanto, um a um, por todo o país, os bolcheviques iam ganhando nos sovietes locais, nas organizações sindicais e nas fileiras dos soldados e marinheiros. Os sovietes camponeses ainda permaneciam conservadores, porque nos distritos rurais a consciência política se desenvolvia lentamente e o Partido Socialista Revolucionário fora durante uma geração o partido que fizera agitação entre os camponeses. Mas, mesmo entre os camponeses, formava-se uma fação revolucionária. Isto tornou-se claro em outubro, quando uma ala esquerda dos socialistas revolucionários se separou e formou uma nova força política, os Socialistas Revolucionários de Esquerda.

Simultaneamente, por toda a parte, havia sinais de que as forças da reação estavam a ganhar confiança[5]. No teatro de farsa Troitski, em Petrogrado, por exemplo, uma comédia burlesca intitulada Pecados do czar foi interrompida por um grupo de monárquicos que ameaçou linchar os atores por “insultos ao imperador”. Alguns jornais começaram a ansiar por um “Napoleão russo”. Entre os intelectuais burgueses, era frequente referirem-se aos sovietes de operários (rabotchikh deputatov) por sabatchikh deputatov, isto é, representantes dos cães.

No dia 15 de outubro, tive uma conversa com um grande capitalista russo, Stepan Gueorgevitch Lianozov, conhecido como o “Rockfeller russo”, um cadete por ideologia política.

A revolução, disse ele, é uma doença. Mais tarde ou mais cedo, as potências estrangeiras terão de intervir aqui, como se interviria para curar uma criança doente e ensiná‑la a andar. Claro que isso seria mais ou menos incorreto, mas as nações devem perceber o perigo do bolchevismo nos seus próprios países, assim como das ideias contagiosas, como “a ditadura do proletariado” e “a revolução social mundial”. Há uma possibilidade que tal intervenção não seja necessária. Os transportes estão desmoralizados, as fábricas a fechar e os alemães a avançar. A fome e a derrota podem fazer com que o povo russo recupere a razão.

Lianozov estava perfeitamente convencido de que, acontecesse o que acontecesse, seria impossível os comerciantes e os industriais permitirem a existência dos comités operários de empresa ou concederem aos operários qualquer partilha da gestão da indústria.

Quanto aos bolcheviques, acabar-se-á com eles através de uma ou duas maneiras. O governo pode evacuar Petrogrado, declarar o estado de sítio e, depois, o comandante militar do distrito pode tratar desses senhores sem formalidades legais. Ou então, por exemplo, se a Assembleia Constituinte manifestar quaisquer tendências utópicas, poderá ser dissolvida pela força das armas.

O inverno aproximava-se, o terrível inverno russo. Ouvi homens de negócios dizerem: «O inverno sempre foi o melhor amigo da Rússia. Talvez agora nos livre da revolução». Na frente gelada, exércitos miseráveis continuavam a passar fome e a morrer, sem entusiasmo. Os caminhos de ferro desmoronavam-se, a comida escasseava, as fábricas fechavam. As massas desesperadas gritavam que a burguesia estava a sabotar a vida do povo, provocando a derrota na frente de guerra. Riga rendera-se logo depois de o general Kornilov ter dito publicamente: «Devemos pagar com Riga o preço de chamar o país ao sentido do seu dever?»

Para os americanos é inacreditável que a luta de classes se possa desenvolver com tal animosidade. Mas conheci pessoalmente oficiais na frente Norte que genuinamente preferiam o desastre militar à cooperação com os comités de soldados. O secretário da secção de Petrogrado do Partido Cadete disse-me que a deterioração da vida económica do país fazia parte de uma campanha para desacreditar a revolução. Um diplomata aliado, cujo nome prometi não mencionar, confirmou ter disso conhecimento. Sei de algumas minas de carvão perto de Kharkov que foram incendiadas e inundadas pelos seus proprietários, de fábricas têxteis em Moscovo cujos engenheiros, ao partirem, avariaram a maquinaria, de funcionários dos caminhos de ferro apanhados pelos operários a inviabilizarem locomotivas...

Uma grande parte da classe proprietária preferia os alemães à revolução – mesmo ao governo provisório – e não hesitava em dizê-lo. Na casa da família russa onde eu vivia, ao jantar, o tema de conversa era quase invariavelmente a chegada dos alemães, que iram trazer “lei e ordem”. Uma tarde, em casa de um comerciante de Moscovo, durante o chá, perguntámos às onze pessoas à mesa se preferiam “Guilherme ou os bolcheviques”. A votação foi de dez contra um a favor de Guilherme.

Os especuladores aproveitaram-se da desorganização generalizada para fazerem fortunas e gastá-las em festanças fantásticas ou no suborno de funcionários governamentais. Os géneros alimentícios e os combustíveis eram açambarcados ou exportados secretamente para a Suécia. Nos primeiros quatro meses da revolução, por exemplo, as reservas de alimentos foram quase abertamente saqueadas dos grandes armazéns municipais de Petrogrado, até que a provisão de cereais existente para dois anos desceu para menos do suficiente para alimentar a cidade durante um mês. Segundo o relatório oficial do último ministro dos Abastecimentos do governo provisório, o café era comprado por atacado a dois rublos a libraii, em Vladivostok, e o consumidor pagava-a a treze em Petrogrado. Em todas as lojas das grandes cidades havia toneladas de comida e roupas, mas apenas os ricos podiam comprá-las.

Numa cidade de província, conheci uma família de comerciantes que se tinha tornado especuladora – maradior (bandido), chamam-lhes os russos. Os três filhos tinham conseguido livrar‑se do serviço militar por meio de suborno. Um especulava com géneros alimentícios. Outro vendia ilegalmente ouro das minas do Lena a misteriosas entidades na Finlândia. O terceiro detinha interesses numa fábrica de chocolate, que fornecia as cooperativas locais – com a condição de que as cooperativas lhe fornecessem tudo o que necessitasse. E assim, enquanto as massas populares recebiam um quarto de libra de pão preto nas suas senhas de racionamento de pão, ele tinha em abundância pão branco, açúcar, chá, doces, bolos e manteiga. No entanto, quando os soldados da frente não conseguiam continuar a combater devido ao frio, fome e exaustão, esta família clamava com indignação “Cobardes!” e “Como nos envergonhamos de ser russos!”. E, quando, finalmente, os bolcheviques descobriram e requisitaram as enormes quantidades açambarcadas de provisões: “Bando de gatunos!”.

Debaixo de toda esta podridão exterior moviam-se as forças obscuras dos velhos tempos, intactas desde a queda de Nicolau II, embora secretas estavam muito ativas. Os agentes da famigerada Okhranaiii continuavam ativos, a favor de e contra o czar, a favor de e contra Kerenski, dependendo de quem pagava. Na sombra, toda a espécie de organizações clandestinas, como os Cem Negrosiv, se empenhavam em restaurar a reação de uma ou outra forma.

Nesta atmosfera de corrupção, de monstruosas meias-verdades, uma nota clara soava dia após dia, a palavra de ordem cada vez mais intensa dos bolcheviques:

Todo o poder aos sovietes! Todo o poder aos representantes diretos de milhões e milhões de operários, soldados e camponeses. Terra, pão, fim da guerra insensata, fim à diplomacia secreta, à especulação, à traição. A revolução está em perigo, e com ela a causa dos povos do mundo inteiro!

A luta entre o proletariado e a classe média, entre os sovietes e o governo, que começara nos primeiros dias de março, estava prestes a culminar. Tendo dado um pulo da Idade Média para o século XX, a Rússia mostrava ao mundo surpreso dois sistemas de revolução – o político e o social – num combate de morte.

Que revelação da vitalidade da Revolução Russa, após todos estes meses de fome e desilusão! A burguesia deveria conhecer melhor a sua Rússia. A “doença” da revolução não teria seguido o seu curso...

Olhando para trás, a Rússia antes da insurreição de novembro parece de uma outra era, inacreditavelmente conservadora. Rapidamente nos adaptamos ao novo, à vida vertiginosa; assim como os políticos russos fizeram uma viragem para a esquerda: os cadetes foram proscritos como “inimigos do povo”, Kerenski tornou-se “contrarrevolucionário”, os dirigentes socialistas do centro – Tsereteli, Dan, Liber, Gots e Avxentiev – eram demasiado reacionários para os seus seguidores e homens como Victor Tchernov, e até Máximo Gorki, pertenciam à direita.

Em meados de dezembro de 1917, um grupo de dirigentes socialistas revolucionários fez uma visita privada a George Buchanan, o embaixador britânico, e imploraram-lhe que não mencionasse o facto de eles terem estado ali, pois eram “considerados demasiado à direita”.

«E pensar», disse Buchanan, «que há um ano, o meu governo me deu instruções para não receber Miliukov, porque ele era perigosamente de esquerda!».

John Reed (1887-1920)

Setembro e outubro são os piores meses do ano na Rússia – especialmente em Petrogrado. Debaixo de um monótono céu cinzento, com os dias curtos, caía uma chuva torrencial, incessante. Caminhava-se numa lama espessa, escorregadia e pegajosa, havia pegadas de botas pesadas por toda a parte, pior do que o habitual, devido à paralisação completa da administração municipal. Do golfo da Finlândia adentravam-se ventos agrestes e húmidos e o nevoeiro gélido cobria as ruas. Durante a noite, por motivos económicos e por medo dos zepelins, os candeeiros de iluminação pública eram poucos e afastados; nas casas havia eletricidade entre as seis da tarde e a meia‑noite, cada vela custava quarenta cêntimos e o petróleo era escasso. Era noite das três da tarde às dez da manhã. Os roubos e assaltos aumentavam. Nos prédios, homens armados de espingardas carregadas faziam turnos de guarda toda a noite. Isto passava-se durante o governo provisório.

Semana após semana, a comida escasseava. A ração quotidiana de pão passou de uma libra e meia para uma libra, depois para três quartos, metade e um quarto de libra. Mais para o fim, houve uma semana sem nenhum pão. Tinha‑se direito a duas libras de açúcar por mês – se se conseguisse encontrá-lo, o que era raro. Uma barra de chocolate ou uma libra de rebuçados insípidos custavam, em todo o lado, entre sete a dez rublos – no mínimo um dólar. Havia leite para cerca de metade das crianças da cidade; a maior parte dos hotéis e das casas particulares não o viram durante meses. Na época da fruta, as maçãs e as peras eram vendidas nas esquinas a pouco menos de um rublo cada uma.

Para obter leite, pão, açúcar e tabaco, era preciso estar na fila durante longas horas, debaixo de uma chuva glacial. Regressando a casa, após uma reunião que durou toda a noite, vi uma kvost (fila) maioritariamente de mulheres, algumas com filhos ao colo, a formar-se antes do amanhecer. Carlyle, na sua História da Revolução Francesa, descreveu o povo francês como distinguindo-se de todos os outros pela sua capacidade de estar em filas. A Rússia habituara-se a esta prática, iniciada no reinado de Nicolau, o Bem-Aventurado, em 1915, e depois continuada intermitentemente até ao verão de 1917, altura em que ficou como ordem natural das coisas. Pense-se nas pessoas pobremente vestidas permanecendo nas ruas gélidas de Petrogrado dias inteiros durante o inverno russo. Nas filas do pão, ouvi o tom amargo e áspero do descontentamento que, de tempos a tempos, irrompia por entre a inacreditável gentileza da multidão russa.

Claro que todos os teatros funcionavam todas as noites, incluindo aos domingos. Karsavina apresentou-se num novo bailado no Marinski e toda a Rússia amante de bailado acorreu para vê-la. Chaliapine cantava. No Alexandrinski, repuseram a produção de Meierhold de A Morte de Ivan, o Terrível, de Tolstoi; e, nessa representação, recordo-me de ver um estudante da Escola Imperial de Pajens, no seu uniforme de gala, corretamente em posição de sentido nos intervalos, voltado para o camarote imperial vazio, com as suas águias apagadas. O Krivoie Zerkalo apresentava uma sumptuosa versão de Reigen de Schnitzler.

Embora o Hermitage e outros museus tivessem sido mudados para Moscovo, havia exposições de pintura semanais. Hordas de mulheres intelectuais iam às conferências sobre arte, literatura e filosofias baratas. Foi uma época particularmente ativa para os teósofos. E, o Exército de Salvação, admitido na Rússia pela primeira vez na história, cobriu as paredes com cartazes anunciando reuniões evangélicas que divertiam e espantavam o público russo.

Como sempre, em tais épocas, a pequena vida convencional da cidade seguia o seu curso, ignorando a revolução tanto quanto possível. Os poetas faziam versos – mas não sobre a revolução. Os pintores realistas pintavam cenas da história medieval russa – tudo menos a revolução. As jovens da província vinham à capital para aprender francês e cultivar a voz e os jovens oficiais, alegres e bonitos, ostentavam os seus bachliki carmesins adornados de ouro e as suas espadas caucasianas sofisticadas nas receções dos hotéis. As senhoras da pequena burguesia burocrática tomavam chá umas com as outras durante a tarde, cada uma levando consigo o seu pequeno açucareiro de ouro ou prata ou ornado de joias e meio pão no regalo, e suspiravam pelo regresso do czar, ou pela chegada dos alemães, ou por qualquer coisa que resolvesse o problema das criadas. Uma tarde, a filha de um amigo meu regressou a casa histérica porque a condutora do elétrico lhe chamara “camarada”!

À volta deles, a grande Rússia dava à luz um mundo novo. Os criados, que se costumava tratar como animais e pagar quase nada, estavam a tornar-se independentes. Um par de sapatos custava mais de cem rublos e, como o salário médio rondava os trinta e cinco rublos por mês, os criados recusavam gastar o seu calçado nas filas. Mas, mais do que isso, na nova Rússia todos os homens e mulheres podiam votar. Havia jornais operários que diziam coisas novas e surpreendentes; havia os sovietes; e havia os sindicatos. Os izvoztchiki (cocheiros) tinham o seu sindicato e também estavam representados no soviete de Petrogrado. Os empregados de restaurantes e hotéis estavam organizados e recusavam as gorjetas. Nas paredes dos restaurantes colocavam cartazes que diziam: «Aqui não se aceitam gorjetas» ou «Lá porque um homem tem de ganhar a vida a servir à mesa não é razão para o insultarem dando-lhe uma gorjeta!».

Na frente, os soldados resolviam a luta contra os oficiais e aprendiam a autogovernar‑se por meio dos seus comités. Nas fábricas, os comités, essas organizações russas únicas, adquiriam experiência e força e concretizavam a sua missão histórica combatendo a velha ordem. A Rússia inteira aprendia a ler e lia – política, economia, história –, porque o povo queria saber. Em todas as cidades, na maioria das vilas, em toda a frente, cada fação política tinha o seu jornal, por vezes vários. Centenas de milhares de panfletos eram distribuídos por milhares de organizações e inundavam os exércitos, as aldeias, as fábricas, as ruas. Com a revolução, a sede de educação, reprimida durante tanto tempo, explodiu em expressões frenéticas. Nos primeiros seis meses, só do Smolni saíam diariamente camiões, comboios com toneladas de publicações que enchiam todo o país. A Rússia absorvia material de leitura como a areia absorve a água, insaciável! E não eram fábulas, histórias falsificadas, religião diluída e ficção barata, mas sim teorias económicas e sociais, filosofia, as obras de Tolstoi, Gogol e Gorki.

E depois a palavra, ao lado da qual “a torrente do discurso francês” referida por Carlyle era apenas uma gota de água. Conferências, debates, discursos – nos teatros, circos, escolas, clubes, salas de reuniões dos sovietes, sedes dos sindicatos, quartéis. Comícios nas trincheiras da frente, nos largos das aldeias, nas fábricas. Que maravilhoso espetáculo ver a Putilovsky Zadov (Fábrica Putilov) esvaziar-se dos seus 40 000 operários para ouvirem sociais-democratas, socialistas revolucionários, anarquistas, qualquer um, o que quer que tivesse para dizer, falasse o tempo que falasse! Durante meses, em Petrogrado e em toda a Rússia, cada esquina era uma tribuna pública. Nos comboios, nos elétricos, sempre e por toda a parte jorrava o debate espontâneo.

Assembleia de operários na fábrica de Putilov, Petrogrado, 1917.

E as conferências e congressos de toda a Rússia, reunindo as pessoas de dois continentes – convenções de sovietes, de cooperativas, das nacionalidades, dos clérigos, dos camponeses, dos partidos políticos; a Conferência Democrática, a Conferência de Moscovo, o Conselho da República Russa… Em Petrogrado, havia sempre três ou quatro convenções a decorrer. Em todas as reuniões, qualquer tentativa para limitar o tempo de palavra dos oradores era rejeitada e cada pessoa era livre de exprimir o seu pensamento.

Visitámos a frente do 12.º Exército, perto de Riga, onde homens magros e descalços adoeciam no desespero da lama das trincheiras. Quando nos viram, levantaram-se e, com os seus rostos descarnados e as peles roxas revelando-se através das roupas esfarrapadas, perguntaram ansiosos: «Trouxeram alguma coisa para ler?».

Apesar de os sinais exteriores e visíveis de mudança serem muitos, apesar de a estátua de Catarina, a Grande, à frente do Teatro Alexandrinski, empunhar uma pequena bandeira vermelha e outras – um tanto desbotadas – flutuarem em todos os edifícios públicos; apesar de as águias e monogramas imperiais terem sido arrancados ou cobertos e de, no lugar do feroz gorodovoie (polícia urbano), uma pacífica e desarmada milícia cívica patrulhar as ruas, ainda havia muitos anacronismos estranhos.

Por exemplo, a Tabel o Rangov – Tabela das Graduações – que Pedro, O Grande impusera com mão de ferro à Rússia ainda subsistia. Quase toda a gente, a começar pelos rapazes dos liceus, usava o uniforme regulamentar, com a insígnia do imperador nos botões e nas ombreiras. Por volta das cinco da tarde, as ruas enchiam-se de velhos senhores submissos de uniforme e pasta, que regressavam a casa depois do trabalho nos enormes ministérios ou instituições governamentais, semelhantes a casernas, calculando, talvez, qual a mortalidade necessária entre os seus superiores para subirem à cobiçada tchin (categoria) de adjuntos de direção ou de conselheiros privados, com a perspetiva de uma aposentadoria com uma pensão confortável e, possivelmente, a Cruz de Sta. Ana.

Há a história do senador Sokolov, que um dia, em plena revolução, foi a uma reunião do senado vestido à civil e não foi admitido porque não envergava a farda prescrita para o serviço do czar!

Foi neste cenário de uma nação inteira em fermentação e desintegração que o espetáculo do levantamento das massas russas se representou.


Notas


[1]Oborontsi: defensores. Todos os grupos socialistas moderados adotaram ou receberam este nome, porque concordavam com a continuação da guerra sob a chefia dos Aliados, a pretexto de que era uma guerra de defesa nacional. Os bolcheviques, os socialistas revolucionários de esquerda, os mencheviques internacionalistas (fação de Martov) e os sociais-democratas internacionalistas (grupo de Gorki) eram a favor de forçar os Aliados a declarar objetivos de guerra democráticos e a oferecer a paz à Alemanha nesses termos.

[2]Salários e custo de vida antes e durante a revolução. As seguintes tabelas de salários e custos foram compiladas, em outubro de 1917, por um comité conjunto da Câmara de Comércio de Moscovo e da secção do Trabalho de Moscovo, e publicadas no Novaia Jizn, em 26 de outubro de 1917:

Apesar das numerosas histórias acerca de gigantescos aumentos de salários imediatamente após a Revolução de Março de 1917, estes números, publicados pelo ministério do Trabalho como sendo característicos das condições em toda a Rússia, mostram que os salários não aumentaram logo depois da revolução, mas sim pouco a pouco. Em média, os salários aumentaram ligeiramente mais do que 500%. Mas, ao mesmo tempo, o valor do rublo desceu a menos de um terço do seu poder de compra anterior e o custo dos produtos essenciais à vida aumentou enormemente.

A tabela seguinte foi compilada pela Duma Municipal de Moscovo, onde a comida era mais barata e mais abundante do que em Petrogrado:

NdT: fund e krushka são unidades de medida utilizadas na Rússia até 1927.

Fund: medida de peso equivalente a 409,512 gramas. Krushka: medida de capacidade equivalente a 1,229 litros

Em média, o preço dos produtos alimentares aumentou 556%, ou seja, 51% mais do que os salários.

Quanto aos outros produtos, os preços aumentaram tremendamente.

A tabela seguinte foi compilada pela secção económica do soviete de operários de Moscovo e aceite como correta pelo ministério dos Abastecimentos do governo provisório.

NdT: fund, archine, pud, vedro são unidades de medida utilizada na Rússia até 1927.

Fund: medida de peso, equivalente a 409,512 gramas.

Archine: medida linear equivalente a 0,7112 metros.

Pud: medida de peso equivalente a 16,3 quilogramas.

Vedro: medida de capacidade equivalente a 12,299 litros.

Em média, as categorias de produtos acima indicados aumentaram cerca de 1109%, mais do dobro do aumento dos salários. Claro que a diferença foi para os bolsos dos especuladores e comerciantes.

Em setembro de 1917, quando cheguei a Petrogrado, o salário diário médio de um operário industrial especializado – por exemplo, um metalúrgico da fábrica Putilov – era de cerca de oito rublos. Na mesma altura, os lucros eram enormes. Um dos proprietários da Thornton Woollen Mills, um interesse inglês dos arredores de Petrogrado, disse-me que enquanto os salários tinham aumentado cerca de 300% na sua fábrica, os lucros tinham disparado para 900%.

[3]Os ministros socialistas. A história dos esforços dos socialistas no governo provisório de julho para concretizarem o seu programa em coligação com os ministros burgueses é um exemplo esclarecedor da luta de classes em política. Lenine, em Problemas da Revolução, ao explicar o fenómeno, diz:

Os capitalistas, vendo que a posição do governo era insustentável, recorreram a um método que, desde 1848, fora praticado durante décadas pelos capitalistas, a fim de confundir, dividir e, finalmente, subjugar a classe operária. Este método é o chamado “ministério da coligação”, composto por burgueses e por renegados do campo socialista.

Nos países em que a liberdade política e a democracia têm existido lado a lado com o movimento revolucionário dos operários – por exemplo, em Inglaterra e em França – os capitalistas utilizam este subterfúgio também com muito êxito. Depois de entrarem nos ministérios, os dirigentes “socialistas” demonstram ser invariavelmente uns testa de ferro, fantoches, um mero escudo para os capitalistas, um instrumento para defraudar os operários. Os capitalistas “democratas” e “republicanos” da Rússia puseram em prática esse mesmo esquema. Os socialistas revolucionários e os mencheviques foram as suas vítimas e, a 1 de junho, o “ministério da coligação”, com a participação de Tchernov, Tsereteli, Skobelev, Avxentiev, Savinkov, Zarudni e Nikitine tornou-se um facto consumado.

iNdT: o Faubourg Saint-Antoine era um dos mais antigo subúrbios de Paris situado a leste da Bastilha. Foi nesse bairro que decorreu a revolta (fronde) de meados do século XVII contra o crescente autoritarismo da realeza.

[4]Eleições municipais de setembro em Moscovo. Na primeira semana de outubro de 1917, o Novaia Jizn publicou o seguinte quadro comparativo dos resultados das eleições, comentando que significavam a bancarrota da política de coligação com as classes proprietárias. «Se a guerra civil ainda pode ser evitada, isto só pode ser feito por uma frente unida de toda a democracia revolucionária.»

 

[5]Arrogância crescente dos reacionários. A 18 de setembro, o cadete Chulguine, escrevendo num jornal de Kiev, disse que a declaração do governo provisório de que a Rússia era uma república constituía um grave abuso dos seus poderes. «Não podemos admitir nem uma república, nem o atual governo republicano. E não temos a certeza de querer uma república na Rússia.»

A 23 de outubro, num comício do partido cadete realizado em Riazan, M. Dukhonine declarou: «A 1 de março devemos estabelecer uma monarquia constitucional. Não devemos rejeitar o herdeiro legítimo do trono, Mikhail Alexandrovich».

A 27 de outubro, uma resolução foi aprovada pela Conferência dos Homens de Negócios de Moscovo:

A Conferência insiste em que o governo provisório tome as seguintes medidas imediatas no Exército:

1. Proibição de toda a propaganda política; o Exército não se deve meter em política.

2. A propaganda de ideias e teorias antinacionais e internacionais nega a necessidade de exércitos e prejudica a disciplina; deve ser proibida e todos os propagandistas punidos.

3. A função dos comités do Exército deve ser exclusivamente limitada a questões económicas. Todas as suas decisões deverão ser confirmadas pelos seus oficiais superiores, que têm o direito de dissolver os comités em qualquer altura.

4. A continência deve ser restabelecida e tornada obrigatória. Restabelecimento completo da autoridade disciplinar nas mãos dos oficiais, com direito de revisão da sentença.

5. Expulsão do corpo de oficiais dos que o desonrarem pela participação no movimento das massas de soldados, que lhes ensina a desobediência. Para este efeito, restabelecimento dos Tribunais de Honra.

6. O governo provisório deve tomar as medidas necessárias para possibilitar o regresso ao Exército dos generais e outros oficiais injustamente demitidos por influência dos comités e de outras organizações irresponsáveis.

iiNdT: libra = 0.45 kg.

iiiNdT: polícia do tempo do czarismo.

ivNdT: bandos formados por toda a espécie de elementos fanatizados ou assalariados pelas organizações reacionárias.


*A publicação deste capítulo pelo Esquerda.net foi autorizada pelas Edições Combate.

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