Cavaco diz que a sua referência é o consenso dos 90% de deputados pró-troika

09 de março 2013 - 12:55

Depois de ter quebrado o silêncio para dizer que têm de ser ouvidas as vozes dos manifestantes que a 2 de Março exigiram a demissão do Governo e o fim do memorando da troika, Cavaco Silva escreveu um texto a elogiar os benefícios do "consenso" entre os partidos pró-troika e a repetir os cenários catastrofistas sobre as alternativas ao desastre económico e social em que o país vive.

PARTILHAR
Manifestação de 2 de Março no Porto. Foto Estela Silva/Lusa

No prefácio a mais um livro que reúne discursos do Presidente que está a chegar a meio do segundo mandato, Cavaco Silva diz agora que "não pode deixar-se arrastar por pulsões emocionais ou afetar pelas tensões que sempre emergem nos tempos de crise", desvalorizando o protesto que trouxe à rua mais de um milhão de pessoas no 2 de Março, tornando-o na maior manifestação de sempre em várias cidades, como o Porto. Há poucos dias, o PR reapareceu em público para dizer que as vozes que se ouviram nessas manifestações "têm de ser escutadas", mas este prefácio confirma que Cavaco é o primeiro a desvalorizá-las.

Cavaco elogia a "solidez e consistência da coligação governativa" que levou a cabo o programa da troika e sublinha que o que "serve de referência" à sua magistratura presidencial é "o amplo consenso político-partidário, correspondente a 90 por cento dos Deputados à Assembleia da República" formado desde maio de 2011, ou seja, o consenso que os protestos do 2 de Março e do 15 de setembro vieram quebrar, na sequência das promessas falhadas e do agravar da crise.

Cavaco contradiz-se sobre efeitos das escolhas políticas e económicas

A dado passo do prefácio intitulado "Um Presidente em tempos de crise", Cavaco Silva dedica-se a questionar a forma como pode ser avaliada a ação política, considerando que "as dificuldades na determinação dos efeitos de uma ação política são semelhantes às da determinação dos efeitos de uma medida económica". Para o PR, essas dificuldades "resultam do facto de não ser possível conhecer diretamente o que teria acontecido se, por hipótese, a dita ação política não tivesse tido lugar".

Mas logo em seguida, indo contra o seu próprio raciocínio, Cavaco não tem nenhuma dificuldade em discorrer sobre o efeito da não aceitação do memorando da troika, dizendo que essa ideia "ignora os efeitos extremamente negativos dessa opção".

Ao contrário do critério que aplica à sua própria ação, o presidente não tem dúvidas sobre o que aconteceria caso o país tivesse rejeitado a receita que o afundou na mais profunda crise, que coincidiu com o início do seu segundo mandato, referindo em primeiro lugar a sua preocupação com a saúde da banca. "Se acaso enveredássemos por esse caminho, agravar-se-ia seriamente a situação do sistema bancário português, assim como de outros investidores institucionais", diz Cavaco.

Mas há mais certezas do Presidente sobre o que teria acontecido se os 90% dos deputados não tivessem tomado a decisão que tomaram: por exemplo, "desvalorizar-se-ia o valor das empresas e de outros ativos nacionais; diminuiria a capacidade de Portugal para defender os seus interesses no plano externo; deteriorar-se-iam drasticamente a imagem, a credibilidade e a reputação externas do País, com prejuízo para as nossas exportações, para a captação de investimento estrangeiro e para a internacionalização da economia; e o Estado, as empresas e os bancos portugueses seriam afastados, por vários anos, porventura décadas, dos mercados financeiros internacionais".

Se estas razões não chegam para convencer os leitores do prefácio sobre o que teria acontecido se PS, PSD e CDS não tivessem tomado a decisão que levou o país ao ponto em que hoje se encontra, Cavaco acrescenta muitas outras: "No plano das relações externas, no diálogo bilateral ou multilateral, na cooperação militar, a nossa posição seria comprometida e o nosso peso negocial diminuiria substancialmente", "Os potenciais investidores olhariam o País como um lugar onde os valores da confiança e do respeito pelos compromissos estariam ausentes" e até "os cidadãos teriam, nas suas vidas profissionais e pessoais, a marca de serem oriundos de um Estado que fora ajudado financeiramente mas que, na altura decisiva, se eximira às obrigações que voluntariamente havia assumido".

Sobre a realidade de hoje, em que os cidadãos de um "país cumpridor" têm de o abandonar para poderem trabalhar e viver com dignidade, Cavaco apenas recorda o discurso em que afirmou que "a justiça na repartição dos sacrifícios tem de ser uma marca da governação que agora se inicia" mas que ao fim de um ano viu agravar a miséria e o desemprego subir para números recorde.