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As bibliotecas do futuro serão feitas de ADN

O futuro do armazenamento da informação pode parecer um assunto aborrecido, mas é crucial para quem se interessa pela maneira como as sociedades se lembram. Artigo de Jerome de Groot.
Foto Steven Vacher/Flickr

A cada segundo são lançados 6.000 tweets. No tempo que leva a ler esta frase, terão sido lançados 42.000 tweets. A uma média de 34 caracteres por tweet, isso dá 1.428.000 caracteres.

O Worldwidewebsize calcula diariamente o tamanho da internet. No dia em que escrevo, ele chega a 5.59 mil milhões de páginas e 1.000 milhões de sites. Isto é só a internet “indexada” e não inclui a “dark web” ou bases de dados privadas.

O tamanho da internet é medido de duas formas. A primeira é o “conteúdo” - a capacidade de armazenamento foi calculada em 2014 em 1024 bytes, ou um milhão de exabytes. A segunda é o “tráfego”, medido em zettabytes. O tráfego global ultrapassou recentemente um zettabyte, o conteúdo de 250 mil milhões de DVDs.

O Reino Unido publicou 184.000 livros em 2013 - o maior número por habitante à escala global. Acrescentemos as crescentes formas de medir o ser humano em termos de dados - sequenciação de ADN, árvores genealógicas online, codificação genética, contas bancárias, informação online de todos os tipos - ou a quantidade de dados científicos em produção e leitura em todo o mundo e a quantidade da informação no mundo é impressionante. Até o tamanho do armazenamento que a maior parte das pessoas precisa para as suas fotos e documentos teve um enorme cresciento nos últimos anos.

Enquanto espécie, estamos a produzir informação a um ritmo massivo. A “leitura” desta massa de dados levou a novos modelos de previsão da interação social. Empresas e governos procuram usar estes dados à medida que os seres humanos parecem mais legíveis, manejáveis e - possivelmente - controláveis através do entendimento e manipulação da informação.

Mas como poderá esta informação toda ser guardada? Por agra, temos bibliotecas físicas e arquivos físicos e estantes. A própria internet está “guardada” em servidores com discos rígidos em todo o mundo, usado quantidades enormes de energia para arrefecimento. A infraestrutura online é cara, faminta de energia e vulnerável; a sua longevidade também está limitada - ver o Die Hard 4.0 para uma dramatização disso.

Bibliotecas do futuro

O futuro do armazenamento da informação pode parecer aborrecido, mas é um assunto crucial para quem se interessa pelas formas como as sociedades se lembram. Um bom exemplo é a história familiar, em que os arquivos públicos como os censos ou a informação fiscal são cada vez mais acedidos online. Milhões de utilizadores em todo o mundo usam sites por assinatura como o Ancestry ou o Findmypast para terem acesso a esta informação pública e criar a sua árvore genealógica através de software online. Esta proliferação de informação levanta problemas éticos sobre o acesso (registos públicos usados por empresas privadas para o seu lucro) e também sobre a forma como esses dados são guardados, geridos e usados.

Todos temos interesse na forma como as bibliotecas e arquivos poderão funcionar no futuro, como podem ser configurados e o que pode ser armazenado - e porquê. Será que precisamos mesmo de armazenar cada tweet que enviamos? Qualquer escolha sobre o que armazenar - o que recolher, comemorar, arquivar - leva a uma discussão complexa. As tecnologias para aceder “ler” - informação têm de ser de alguma forma à prova de futuro, ou vamos acabar com quantidades enormes de informação que não se pode usar.

Então o que fazer? Há discussões muito alargadas nos dias que correm, que vão desde que informação guardar (incluindo vários biobancos cheios de espécimes biológicos), como guardá-la (no Ártico, em vários sítios no espaço, debaixo de água). A maior parte destes debates tem lugar entre as comunidades científicas; algumas empresas de tecnologia participam nele. Quem passou anos a pensar sobre a memória, comemoração e arquivística - historiadores e bibliotecários - está muitas vezes à margem da discussão.

Nanocristais e ADN

Várias organizações estão a explorar formas físicas de guardar a informação da humanidade. O armazenamento físico em discos de níquel (lidos por microscópio) ou códigos de barras inscritos a laser em vidro de quartzo são algumas das ideias. A altamente experimental - e atualmente faminta de energia - nanotecnologia procura escrever informação ao nível quase-molecular (embora o uso da palavra ‘escrever’ esteja aqui muito desatualizado). O armazenamento nanotecnológico seria “lido” através de microscopia sofisticada e é por vezes o “efeito” de alterações químicas ou processos bastante complicados, como o dos nanocristais a converterem radiação (infraverlehos) em algo “visível”. Alguns dos modelos de armazenamento mais barrocos vão desde um cofre com dados de memória flash na Lua até empresas privadas a enviarem conteúdo digital para Marte, passando por satélites em órbita sobre a Terra.

Mas a maior parte da atividade hoje em dia parece ser biológica. Muitos cientístas começaram a explorar a possibilidade de usar ADN para guardar informação, chamada Memória de Ácido Nucleico.

Isto passa pela “tradução” dos dados para as letras GATC, os ácidos nucleicos básicos do ADN. Seriam então criadas as fitas do ADN que poderiam ser traduzidas de volta ao “original” através da sequenciação. Os investigadores guardaram recentemente versões com qualidade de arquivo das músicas de Miles Davis e Deep Purple e também um curto GIF em forma de ADN.

O ADN é durável e cada vez mais fácil de produzir e ler. Pode durar milhares de anos sob condições adequadas de armazenamento. O ADN pode ser guardado em qualquer local que seja escuro, seco, frio, e provalvelmente não ocupará muito espaço.

Boa parte desta tecnologia está ainda a dar os primeiros passos, mas os progressos na nanotecnologia e na sequenciação do ADN deixam antever que iremos ver nos próximos anos a aplicação dos resultados das experiências. Problemas maiores se levantam quanto à ética da recolha e em que medida irão estes processos generalizar-se. A impressão, e em certa medida o digital, tornaram-se formas comuns e razoavelmente democráticas de transmitir e guardar informação. Resta saber se o futuro do armazenamento e da escrita serão tão simples de aceder, e quem ira controlar a informação e a memória da humanidade nas próximas décadas e séculos.


Jerome de Groot é professor da School of Arts, Languages and Cultures da Universidade de Machester. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net  

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