Banco do BRICS em debate na próxima cimeira

A proposta da Índia, de criação de um banco do BRICS, ocupará o lugar central da agenda na cimeira deste grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que acontecerá no dia 28 em Nova Délhi. Artigo de Kester Kenn Klomegah, da IPS.
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão debater banco comum.
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão debater banco comum.

A Índia considera que a ideia de um banco conjunto está em concordância com o crescente poderio económico destes cinco países e permitirá reafirmar a sua posição nos processos de decisão globais.

“Um banco do BRICS não precisa de muito capital para começar”, afirmou à IPS o especialista Alexander Appokin, do Centro de Previsões e Análise Macroeconómica, com sede em Moscou. “O mais importante é que um banco de desenvolvimento do grupo será uma oportunidade única de investimento direto interno das reservas estrangeiras dos países-membros”, ressaltou.

Por exemplo, permite emitir dívida convertível, que pode ter uma boa qualificação e ser comprada pelos bancos centrais dos países do grupo. “A China seria a maior beneficiária”, acrescentou Appokin. “Além disso, o que mais exige o investimento em infraestrutura não é só financiamento de longo prazo, mas controlo externo para melhorar a transparência e aumentar a eficiência”, explicou.

“Um banco de desenvolvimento do BRICS também ofereceria assessoria para implementar projetos de sucesso”, destacou Appokin. “Este tipo de estrutura financeira só é efetiva se tem independência dos governos para decidir sobre a assistência de projetos ou, pelo menos, se tem espaço para operar num contexto de desenvolvimento de longo prazo”, acrescentou.

Yuhua Xiao, professor-adjunto do Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China, afirmou que a ideia de criar um banco de desenvolvimento é sinal do crescente domínio e de independência ou interdependência das economias emergentes. “Como o enfoque das potências emergentes sobre o desenvolvimento pode variar a respeito das normas estabelecidas, uma instituição como esta colocará à prova a possibilidade de cooperação em um contexto diferente e gerar novas ideias”, opinou Yuhua à IPS por e-mail.

A proposta da Índia vem de longa data, afirmou John Masaka, analista financeiro da multinacional Wells Fargo Capital Markets. “É a forma como as nações emergentes procuram sair da dependência do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional” (FMI), dominados pelos países ricos, disse à IPS. “Basicamente, Índia, China e, talvez, Rússia, tentem mostrar ao ocidente seu poderio económico e que não sentem falta de sua participação”, ressaltou.

Segundo Masaka, além de ser uma instituição financeira para os países BRICS, o banco coletivo também poderia apoiar projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina. Contudo, ainda há muito caminho pela frente, destacou. “É preciso ver a eficácia do banco. Não será fácil. A China já disse que quer a presidência permanente, e Rússia e Índia podem reclamar o mesmo”, ponderou.

“Sabemos que a África é um mercado lucrativo para Pequim em termos de recursos naturais e como mercado de produtos industriais”, acrescentou Masaka. “Sendo a África uma região estratégica, a China pode querer que o banco financie muitos de seus projetos ali ou simplesmente que coopere com o Banco de Desenvolvimento Africano”, detalhou.

Masaka também disse que há assuntos que não têm resposta quanto à estrutura do capital, como quais membros do BRICS colocarão maior quantidade de dinheiro para criar o banco e o papel que terão os membros. Albert Khamatshin, do Centro de Estudos sobre a África austral, da Academia de Ciências da Rússia, acredita que a África do Sul seria o país mais beneficiado, pois o principal centro de interesse do banco seriam os projetos de desenvolvimento dentro do BRICS.

Alexandra A. Arkhangelskaya, diretora do Centro de Informação e Relações Internacionais, do Instituto de Estudos Africanos da Academia de Ciências da Rússia, afirmou que um banco como este poderia mudar o equilíbrio económico, embora sua criação seja difícil. “É bom em termos de um contexto multicultural de cooperação. Porém, os países do BRICS têm diferente peso económico, e encontrar o equilíbrio correto para evitar que um ou mais membros sejam dominantes poderá significar um desafio. A ameaça de que alguns sejam marginalizados pela China é evidente”, ressaltou.

O grupo “BRICS é uma unidade na diversidade, e será um desafio dar novos passos para uma cooperação mútua. Assim, é interessante observar o desenvolvimento desta ideia e compreender de forma clara o mecanismo de sua implementação”, destacou Arkhangelskaya. Também considerou que o banco poderá ser muito benéfico para outros, como as nações menos adiantadas, como fez o Fundo de Desenvolvimento Ibas (Índia, Brasil, África do Sul), que tem em seu haver vários projetos de sucesso.

Os países em desenvolvimento estariam dispostos a colocar dinheiro para resolver os problemas da zona do euro em troca de mais poder no FMI, afirmou o professor Adams B. Bodomo, da Faculdade de Humanidades da Universidade de Hong Kong. Entretanto, alertou que o Fundo Monetário Internacional não é realmente para os países em desenvolvimento e o chamou de Fundo Monetário Ocidental.

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