Baixa de salários será pior para a economia, avisa OIT contrariando posição do BCE

O BCE quer que os países da zona euro atingidos pela crise da dívida baixem ainda mais os salários, nomeadamente o salário mínimo. A OIT contraria esta posição, defende que recuperar a competitividade através de cortes salariais é “insustentável a nível mundial” e alerta que estas medidas poderão criar uma espiral de queda da procura agregada e de deflação de preços.
A OIT alerta que a política de baixa de salários pode criar uma espiral de queda da procura agregada e de deflação de preços

O Banco Central Europeu (BCE), no seu boletim mensal divulgado nesta quinta feira, elogia as medidas que têm sido impostas pela troika e diz que os países da zona euro atingidos pela crise da dívida soberana - nomeadamente Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha e Chipre, devem baixar os salários, porque têm “graves desequilíbrios macroeconómicos”.

Para o BCE é “particularmente urgente” que estes países reduzam os custos unitários do trabalho, devendo, em especial, flexibilizar a legislação de proteção do emprego, abolir a indexação salarial e baixar o salário mínimo. O BCE não se coíbe mesmo de vir de dizer novamente que estes países devem avançar rapidamente com outras medidas impostas pela troika, nomeadamente as privatizações, sob a justificação de que é preciso criar um ambiente empresarial “favorável”.

Nesta sexta feira, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou um comunicado contestando abertamente a posição do BCE. Diz a OIT que reduzir salários para aumentar exportações, também deprime o consumo interno, afetando o crescimento e que, “dado o nível de incerteza económica neste momento, também não é claro que os cortes de salários gerem incentivos suficientes para aumentar o investimento”.

"Sempre que uma queda nos salários reduz o consumo interno mais do que aumenta as exportações e o investimento, tem um efeito negativo sobre o crescimento económico de um país", diz Patrick Belser, economista da OIT e editor do Relatório Global sobre os salários.

A OIT salienta que baixar os salários em períodos de crise, como o atual, pode criar uma espiral de redução da procura agregada e de deflação dos preços. Além disso, sublinha a instituição, querer recuperar a competitividade através da redução dos custos unitários do trabalho, nomeadamente cortando salários ou levar a produtividade a crescer mais do que os salários, é “insustentável a nível mundial”. Belser frisa que se a política de cortes salariais for aplicada “simultaneamente em todos os países” então os ganhos competitivos perdem-se e o efeito regressivo dos cortes globais dos salários poderá “levar a uma depressão mundial da procura agregada e do emprego” e defende que o objetivo deve ser “que os salários e a produtividade cresçam ao mesmo ritmo”.

Comentários

o que é a indexação salarial? e já agora há uns tempos atrás vi aqui uma notícia que dizia que o BCE é que era responsável pelos juros da dívida?

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