Está aqui

Alcoólicos esperam meses por tratamento

Falta de profissionais e “situação de ingovernabilidade” existente desde que direita extinguiu o Instituto da Droga e da Toxicodependência justificam espera. Bloco questionou Ministério da Saúde e pediu audição com coordenadores da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências do Norte que se demitiram.
A ausência de um modelo de governabilidade, que se traduziu num aumento das listas de espera, já levou à demissão de 13 coordenadores da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) do Norte.

Tendo tido conhecimento da "existência de espera de muitos meses para acesso a tratamento de desintoxicação por parte de utilizadores de álcool", o deputado bloquista Moisés Ferreira questionou o Ministério da Saúde sobre esta questão, solicitando, nomeadamente, informações sobre qual o tempo, em cada região do país, que decorre entre a procura de tratamento e o início efetivo do tratamento.

Na resposta enviada ao Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, a chefe de Gabinete do Ministro da Saúde informa que, entre janeiro e setembro deste ano, o tempo médio de espera para internamento na Unidade de Desabituação do Norte foi de 67 dias. Na Unidade de Alcoologia de Lisboa, os utentes esperaram em média 57 dias e, nas Unidades de Desabituação (UD) de Lisboa e Coimbra, o tempo médio de espera foi de 35 dias. Já no que concerne à Unidade de Alcoologia (UA) do Centro, os utentes esperaram em média 39 dias para iniciarem tratamento. Apenas na UD do Algarve os utentes não tiveram que esperar em média mais do que nove dias.

Tempo de espera põe em causa tratamento

Num momento em que se regista um agravamento dos consumos de risco, principalmente entre as mulheres, e que se sabe que 13,1% das mortes registadas em 2016 foram motivadas por problemas e doenças derivados do consumo excessivo de álcool, o aumento das listas de espera pode ter consequências dramáticas.

“É muito tempo. O alcoólico, como o toxicodependente, tem uma maleabilidade emocional muito grande e se no momento em que decide iniciar tratamento não obtém uma resposta atempada, quando finalmente o chamam pode já não estar em maré de sim”, alertou Manuel Cardoso, subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), em declarações ao jornal Público.

De acordo com Manuel Cardoso, a situação deverá ter-se deteriorado, já que “nada aconteceu entretanto para que as coisas melhorassem”.

O responsável do SICAD referiu que “antes da extinção do IDT [Instituto da Droga e da Toxicodependência], o tempo de espera era de 15 dias no máximo, em cada uma das diferentes unidades. Às vezes esperava-se uma semana, para garantir que a vontade de iniciar tratamento estava consolidada, mas nunca mais de duas”.

Manuel Cardoso lamentou que, “nomeadamente por causa da instabilidade de governança nos serviços”, a prometida rede de referenciação para os problemas ligados ao álcool não tenha avançado.

O subdiretor-geral do SICAD Cardoso admitiu, por outro lado, que “o cenário de austeridade e de crise por que passámos” possa ter contribuído para a atual escassez de profissionais tanto quanto as indefinições motivadas pela reforma operada nos serviços pelo Governo PSD/CDS.

13 coordenadores dos diferentes serviços na região Norte demitiram-se

A ausência de um modelo de governabilidade, que se traduziu num aumento das listas de espera, já levou à demissão de 13 coordenadores da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) do Norte.

Numa carta endereçada à Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, os profissionais denunciam a “situação de ingovernabilidade” existente desde que, há cinco anos, o governo da direita extinguiu o IDT, fazendo transitar as suas estruturas para as ARS, com o propósito, até agora adiado, de integrar a intervenção nos comportamentos aditivos e nas dependências na rede de cuidados primários.



“Cinco anos passados, constatamos que, apesar das insistentes chamadas de atenção à tutela para a precariedade da estrutura orgânica e a indefinição sobre a política nacional em matéria de organização dos cuidados de saúde, estes têm-se degradado, a capacidade e motivação dos profissionais decrescido e a capacidade de governação administrativa, clínica e técnica é insustentável neste modelo indefinido”, alertam.

Os profissionais sinalizam ainda o recurso a profissionais em regime de outsourcing, apesar de estar em causa uma “área muito frágil que requer um corpo especializado em matéria de comportamentos aditivos e toxicodependências”.

Bloco pediu audição dos profissionais do DICAD do Norte

Neste contexto, o Bloco requereu a audição no Parlamento dos 13 coordenadores da DICAD do Norte que apresentaram a demissão.

“Portugal tem sido apontado como um exemplo internacional na forma como aborda a questão das drogas e outras dependências”, lembra o Bloco no requerimento apresentado no Parlamento, acrescentando que “a fragmentação das respostas de prevenção, tratamento e dissuasão e redução de riscos, a falta de profissionais e o aumento das listas de espera prejudicam todo este trabalho e os bons resultados obtidos por Portugal”.

Sinalizando ser “fundamental perceber e identificar os obstáculos que estão a impedir o desenvolvimento do trabalho que é necessário nesta área”, os bloquistas requerem igualmente a audição do “Grupo de Aveiro”, que tem vindo a reivindicar um regresso ao modelo antigo, que agregava numa só organização todas as competências na área dos comportamentos aditivos.

AnexoTamanho
PDF icon pg64-xiii-3.pdf1022.83 KB
PDF icon pr64-xiii-3-a.pdf108.57 KB
PDF icon requerimento.pdf540.09 KB
Termos relacionados Sociedade

Adicionar novo comentário