Está aqui

2017 foi um ano especialmente letal para mulheres jornalistas

As mulheres jornalistas enfrentam riscos específicos: elas estão, por exemplo, mais sujeitas a sofrer agressão sexual e assédio online do que os seus colegas do sexo masculino. Por Henriette Chacar.
Daphne Caruana Galizia, jornalista que liderava a investigação dos Panama Papers em Malta, morreu em outubro de 2017, quando o carro em que circulava explodiu.
Daphne Caruana Galizia, jornalista que liderava a investigação dos Panama Papers em Malta, morreu em outubro de 2017, quando o carro em que circulava explodiu.

O jornalista mexicano Gumaro Pérez Aguilando recebeu um tiro na cabeça enquanto assistia à apresentação de Natal de seu filho na última semana. Em outubro, um carro-bomba matou a jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia enquanto dirigia perto de casa. No meio do ano, a jornalista sueca Kim Wall foi morta a facadas, a bordo de um submarino, enquanto fazia uma reportagem sobre o seu construtor, o inventor Peter Madsen, que está a ser acusado de assassiná-la.

Esses foram alguns dos 42 jornalistas mortos em razão do seu trabalho, durante o ano de 2017, segundo um relatório divulgado no final de Dezembro, pelo Comité de Proteção aos Jornalistas (CPJ). O relatório também apontou uma proporção excepcional de mulheres nesse número.

“O que estamos a ver é uma deterioração, de proporções globais, no ambiente da liberdade de imprensa”, disse Courtney Radsch, diretora da área de defesa de direitos, no CPJ.

Embora o número de assassinatos de jornalistas se tenha reduzido este ano, o de jornalistas presos em razão do seu trabalho, atingiu um novo recorde, 262, a maior parte na Turquia, seguida pela China e pelo Egito. Radsch destacou que o número de jornalistas presos por acusações de notícias falsas (“fake news”) mais do que duplicou. “Parece haver uma manifestação na vida real do discurso de ‘fake news’ que procura infamar e deslegitimar o papel dos jornalistas e do jornalismo na sociedade, especialmente nas democracias”, disse ela.



De forma semelhante a anos anteriores, 90 por cento dos jornalistas assassinados eram locais, e muitos morreram em zonas de guerra. Embora no total haja menos mortes de jornalistas no Médio Oriente do que há alguns anos, o Iraque e a Síria foram os lugares mais letais para jornalistas, em 2017. Foram mortos mais jornalistas no Iraque do que em qualquer outro país desde 1992, quando o CPJ começou a coletar registros detalhados. Na guerra do Iémen, pelo menos dois jornalistas foram mortos em consequência de projéteis lançados pelas milícias dos houthis e de Saleh, e pelo menos mais dois jornalistas foram feridos em ataques aéreos da coligação liderada pela Arábia Saudita.

O terceiro pior país foi o México, onde pelo menos seis pessoas morreram devido à sua atividade jornalística. A lista inclui jornalistas de renome como Miroslava Breach e Javier Valdez Cárdenas. Segundo Radsch, as mortes dos repórteres mexicanos estavam ligadas, em regra, às coberturas que haviam feito sobre corrupção, cartéis de drogas e crime organizado, mas praticamente nenhum dos assassinos foi levado à justiça. “É a combinação dos assassinatos desenfreados com a impunidade endémica que causa um efeito assustador no México”, ela acrescentou. (Outras organizações registaram um número mais alto de jornalistas assassinados no Méxicono resto do mundo, alegadamente por questões relacionadas com o seu trabalho, mas, de acordo com Radsch, o CJP só inclui casos em que a conexão com a atividade jornalística foi confirmada.)

Este foi um ano especialmente letal para as mulheres

Este foi um ano especialmente letal para as mulheres. A média histórica de mulheres jornalistas mortas é de 7 por cento do total, mas, em 2017, esta chegou aos 19 por cento. Uma das razões possíveis é que haja mais mulheres cobrindo editorias e regiões perigosas, em relação aos anos anteriores, como entende Lauren Wolfe, jornalista de investigação e diretora do programa “Mulheres do Women’s Media Center Sob Cerco”.

As mulheres jornalistas enfrentam riscos específicos: elas estão, por exemplo, mais sujeitas a sofrer agressão sexual e assédio online do que os seus colegas do sexo masculino. Wolfe disse que, com frequência, aqueles que deveriam proteger as jornalistas, como guardas e motoristas, podem representar a maior ameaça ao trabalho.

Embora o abuso sexual venha a mostrar-se, para as mulheres jornalistas, um dos maiores entraves à liberdade de imprensa, o CPJ não acompanha as estatísticas sobre o assunto, nos seus relatórios anuais.

Para Elisa Lees Muñoz, diretora-executiva da International Women’s Media Foundation (Fundação Internacional das Mulheres nos Media), essa é uma limitação. “Não é possível ter uma visão do todo quando são monitorizados apenas homicídios, encarceramentos e processos judiciais, porque os tipos de ameaça que as mulheres enfrentam são igualmente insidiosos e ameaçadores para a liberdade de imprensa”, disse Muñoz, ao The Intercept.

Radsch, do CPJ, explicou que o desafio de monitorizar incidentes de abuso sexual é que, ao contrário dos encarceramentos e homicídios, estes não costumam ser presenciados externamente: quem sofreu o abuso é quem precisa de o levar a público.

Mesmo que o movimento #MeToo tenha trazido uma enxurrada de denúncias, as mulheres ainda são reticentes ao falar das suas experiências de agressão, por medo das potenciais repercussões. Uma delas é que a questão ainda representa um estigma cultural e profissional. Muñoz destacou como a violência com base no género pode levar as redações a adotarem uma abordagem paternalista, limitando as oportunidades de trabalho disponíveis para as mulheres e impedindo-as de progredir nas suas carreiras, num ritmo semelhante ao dos homens.

“Já vimos homens que foram encarcerados voltarem ao trabalho, já vimos homens que foram sequestrados aceitarem trabalhos em ambientes hostis. Isso não parece comprometer a sua habilidade de voltar a cobrir esses locais, enquanto as mulheres são automaticamente tratadas como se tivessem sofrido algum tipo de dano e precisassem de ser protegidas”, disse ela.

Boa parte do diálogo sobre género e liberdade de imprensa continua a tratar o género como uma construção binária, e a focar-se apenas nas diferenças entre homens e mulheres. Além da distinção homem-mulher, o CPJ acrescentou uma categoria não binária ao seu banco de dados, mas até agora não há registros disponíveis sobre as experiências de jornalistas não cisgénero.

Tanto Wolfe quanto Muñoz sugeriram que contratar mais mulheres para altos cargos editoriais seria uma forma de ajudar as redações a criar um ambiente mais seguro para as mulheres jornalistas. Além disso, Muñoz entende que é preciso haver, nas redacções, uma cultura focada na diversidade como um objetivo em si mesmo. “Isso precisa de ser uma prioridade”, declarou. As redações deveriam “querer ter mulheres na atividade jornalística, para que elas possam dar uma diversidade de perspectivas”.


Artigo publicado em The Intercept. Tradução de Deborah Leão, revista pelo Esquerda.net.

Termos relacionados Sociedade

Adicionar novo comentário