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A “perda do mundo”: o declínio dos EUA em perspetiva

Por volta de 1970, a parcela detida pelos EUA da riqueza do mundo caíra de metade, no fim da II Guerra, para 25%. O declínio entrou então numa nova fase, na rota da financeirização e da transferência da indústria para o exterior. Primeira parte de um artigo em 2 partes.
As ordens de Henry Kissinger foram cumpridas: “destruir qualquer coisa que voe ou que se mova”; um apelo ao genocídio, raro nos registos históricos. Foto de Judge Rock

Aniversários significativos são comemorados solenemente – o do ataque japonês à base da marinha norte-americana de Pearl Harbor, por exemplo. Outros são ignorados, mas podemos sempre retirar deles valiosas lições sobre o que nos espera adiante. Na verdade, agora.

Neste momento, não estamos a comemorar o 50° aniversário da decisão do presidente John F. Kennedy de promover a mais assassina e destrutiva agressão do período pós-Segunda Guerra: a invasão do Vietname do Sul, e depois de toda a Indochina, deixando milhões de mortos e quatro países devastados, com perdas que ainda crescem devido aos efeitos a longo-prazo de se ter ensopado a região dos carcinogénicos mais letais que se conhecem, usados para destruir a cobertura vegetal e a produção de alimentos.

O alvo principal foi o Vietname do Sul. A agressão alastrou-se mais tarde para o Norte, e depois para a remota sociedade camponesa do Laos, no nordeste, até finalmente chegar ao Camboja rural, que foi bombardeado a um nível impressionante, equivalente a todas as operações aéreas aliadas na região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo as duas bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. Nisto, as ordens de Henry Kissinger estavam a ser cumpridas – “destruir qualquer coisa que voe ou que se mova”; um apelo ao genocídio, raro nos registos históricos. Pouco se recorda disto. Pouco se sabia disto para além dos estreitos círculos de ativistas.

Quando a invasão foi desencadeada, há 50 anos, havia tão pouca preocupação, que escassos foram os esforços de justificação; dificilmente iam além do inflamado pretexto do presidente, que argumentava que “em todo o mundo estamos a ser combatidos por uma conspiração monolítica e brutal que se apoia principalmente em meios encobertos para expandir a sua esfera de influência”, e que se a conspiração atingir os seus objetivos no Laos e no Vietname, “os portões serão escancarados".

Noutra oportunidade, ele advertiu ainda que “as sociedades moles, complacentes e comodistas estão prestes a ser varridas para os escombros da história [e] que só os fortes... podem sobreviver”, refletindo neste caso o fracasso da agressão e do terror americanos para esmagar a independência cubana.

Quando os protestos começaram a crescer, meia dúzia de anos depois, o respeitado historiador militar e especialista em Vietname Bernard Fall, que não era pacifista, previu que “o Vietname como entidade histórica e cultural... está ameaçada de extinção...[na medida em que]... a sua área rural literalmente morre sob os bombardeamentos da maior máquina militar jamais em operação numa área deste tamanho”. Mais uma vez, referia-se ao Vietname do Sul.

Quando a guerra acabou, oito horrendos anos depois, a opinião dominante estava dividida entre aqueles que a descreviam como uma “causa nobre” que poderia ter sido vencida com mais dedicação, e o extremo oposto, os críticos, para quem se tratou de “um erro” que provou ter custos demasiado altos. Por volta de 1977, o presidente Carter chamou pouca atenção quando explicou que “não temos dívida” com o Vietname porque “a destruição foi mútua”.

Em tudo isto há lições importantes a retirar hoje, para além de recordar que só os fracos e derrotados são chamados a prestar contas pelos seus crimes. Uma lição é que para entender o que está a acontecer devemos levar em conta não só os acontecimentos mais importantes do mundo real, frequentemente ignorados pela história, mas também o que acreditam os líderes e a opinião da elite, por mais que esteja tingida de fantasia. Outra lição é que, ao lado dos arroubos de fantasia fabricados para aterrorizar e mobilizar o público (e em que talvez acreditem os que se veem apanhados pela armadilha da própria retórica), há também planeamento geoestratégico baseado em princípios que são racionais e estáveis em longos períodos, porque estão enraizados em instituições estáveis. Isso também é verdade no caso do Vietname. Voltarei a isto, destacando apenas aqui que os fatores persistentes na ação do Estado são geralmente bem escondidos.

A guerra do Iraque é um caso instrutivo. Ela foi propagandeada a um público aterrorizado com os argumentos habituais de autodefesa diante de uma formidável ameaça à sobrevivência: a “única questão”, disseram George W. Bush e Tony Blair, era se Saddam Hussein poria fim ao seu programa de desenvolvimento de armas de destruição em massa. Quando esta única questão recebeu a resposta errada, a retórica do governo mudou sem problemas para o argumento do “anseio por democracia”, e a opinião pública educada seguiu devidamente este curso; tudo rotina.

Mais tarde, à medida que o nível de derrota dos EUA no Iraque se tornou difícil de esconder, o governo calmamente admitiu o que estava claro para todos. Em 2007-2008, a administração anunciou oficialmente que um acordo final tinha de assegurar a permanência de bases militares dos EUA e o direito de fazer operações de combate, e privilegiar os investidores norte-americanos na exploração de seu rico sistema energético – exigências que mais tarde foram relutantemente abandonadas diante da resistência iraquiana. E tudo ficou bastante escondido da maioria das pessoas.

Avaliando o declínio americano

Com estas lições em mente, é útil observar o que é hoje destacado nos maiores jornais de política e opinião. Tomemos a mais prestigiada das publicações do establishment, a Foreign Affairs. O título de capa da edição de dezembro de 2011 era: “A América acabou?”.

O artigo principal pedia “redução” das “missões humanitárias” no exterior, que estão a consumir a riqueza do país, de forma a deter o declínio americano, que é um importante tema dos discursos de política externa, normalmente acompanhados pelo corolário de que o poder está a deslocar-se para o Leste, para a China e (talvez) para a Índia.

Os artigos principais são sobre Israel-Palestina. O primeiro, da autoria de dois altos oficiais israelitas, intitula-se “O Problema é a Rejeição Palestiniana”: o conflito não pode ser resolvido porque os palestinianos se recusam a reconhecer Israel como estado judeu – em conformidade, aliás, com a prática diplomática padrão: os estados são reconhecidos, mas não setores privilegiados no seu interior. A exigência não passa de um novo dispositivo para barrar a ameaça de uma solução política que minasse os objetivos expansionistas de Israel.

A posição oposta, defendida por um professor norte-americano, tem o título “O Problema é a Ocupação”. No subtítulo lê-se: “Como a Ocupação está a Destruir a Nação”. Qual nação? Israel, claro. Ambos os artigos aparecem sob o título: “Israel sitiado”.

A edição de janeiro de 2012 destaca ainda um outro apelo a bombardear o Irão agora, antes que seja demasiado tarde. Alertando para “os perigos da dissuasão”, o autor sugere que “os céticos em relação à ação militar não compreendem o verdadeiro perigo que um Irão com armas nucleares significaria para os interesses dos EUA no Médio Oriente e além. E as suas previsões sombrias assumem que a cura seria pior do que a doença – isto é, que as consequências de um ataque dos EUA ao Irão seriam tão más ou piores do que as de o país concretizar as suas ambições nucleares. Mas essa é uma conclusão falsa. A verdade é que um ataque militar visando destruir o programa nuclear iraniano, se gerido com cautela, poderia poupar a região e o mundo de uma ameaça muito real e melhorar dramaticamente a segurança nacional dos Estados Unidos a longo prazo”.

Outros argumentam que os custos seriam altos demais, e no limite alguns chegam a dizer que um ataque violaria o direito internacional – como o fazem os moderados, que regularmente lançam ameaças de violência, em violação à Carta das Nações Unidas.

Façamos a revisão de cada uma dessas preocupações dominantes.

O declínio americano é real, embora a visão apocalíptica reflita a conhecida perceção da classe dominante de que algo que seja inferior ao controlo total equivale ao desastre. A despeito desses lamentos piedosos, os EUA continuam, por larga margem, a ser a potência mundial dominante e não há competidores à vista, não apenas na dimensão militar, na qual evidentemente os EUA reinam supremos.

A China e a Índia registaram crescimento rápido (embora altamente desigual), mas permanecem países muito pobres, com problemas internos enormes que o Ocidente não tem. A China é o maior centro industrial do mundo, mas é maioritariamente uma linha de montagem para as potências industriais avançadas, na sua periferia, e para as multinacionais ocidentais. É provável que isto mude com o tempo. A indústria cria regularmente as bases para a inovação e a invenção, como às vezes ocorre na China. Um exemplo que impressionou os especialistas ocidentais foi o facto de a China ter assumido a liderança do mercado crescente de painéis solares, não apenas com base na mão de obra barata, mas também no planeamento coordenado e, crescentemente, na inovação.

Mas os problemas que a China enfrenta são sérios. Alguns são demográficos, relatados pela Science, a líder das revistas norte-americanas semanais de divulgação científica. O estudo mostra que a mortalidade caiu bruscamente na China durante os anos maoístas, “principalmente uma consequência do desenvolvimento económico e das melhorias nos serviços educacionais e de saúde, especialmente o movimento de higiene pública que resultou numa queda drástica à mortalidade por doenças infecciosas”. Este progresso acabou com o início das reformas capitalistas no país, há 30 anos, e a taxa de mortalidade desde então tem aumentado.

Além disso, o crescimento económico chinês recente apoiou-se substancialmente num “bónus demográfico”, uma ampla população em idade economicamente ativa. “Mas a janela para a colheita desse bónus pode fechar-se em breve”, com um “impacto profundo sobre o desenvolvimento”: “a disponibilidade excessiva de mão de obra barata, que é um dos principais fatores a impulsionar o milagre económico chinês, deixará de estar disponível”.

A demografia é apenas um dos muitos problemas sérios adiante. No que respeita à Índia, os problemas são ainda mais graves.

Nem todas as vozes proeminentes anteveem o declínio americano. Nos média internacionais, não há nada mais sério e responsável que o Financial Times. O jornal recentemente dedicou uma página inteira às expectativas otimistas de que a nova tecnologia de extração de combustível fóssil norte-americano pode permitir que os EUA se tornem energeticamente independentes, mantendo assim a sua hegemonia global por um século. Não há menção ao tipo de mundo que os EUA iriam comandar neste feliz evento, mas não por falta de provas.

Quase ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia reportou que, com o aumento rápido das emissões de carbono dos combustíveis fósseis, o limite de segurança será atingido por volta de 2017, se o mundo prosseguir no curso atual. “A porta está a fechar-se”, disse o economista-chefe da AIE, e em muito breve “fechar-se-á de vez”.

Pouco antes, o Departamento de Energia dos EUA informou que os dados mais recentes das emissões de dióxido de carbono, que “saltaram para o maior volume já registado”, para um nível mais elevado do que os piores cenários antecipados pelo Painel Internacional de Alterações Climáticas (IPCC). Isso não é surpresa para muitos cientistas, inclusive os do programa do MIT sobre as alterações climáticas, que durante anos alertaram que os prognósticos do IPCC eram conservadores demais.

Esses críticos das previsões do IPCC não receberam virtualmente qualquer atenção pública, ao contrário das franjas de negacionistas do aquecimento global, que são apoiados pelo setor empresarial, além das imensas campanhas de propaganda que têm levado os americanos a desvalorizar estas ameaças. O apoio empresarial também se traduz diretamente no poder político. O negacionismo é parte do catecismo que deve ser entoado pelos candidatos republicanos na campanha eleitoral de farsa que está em curso, e no Congresso eles são suficientemente poderosos para abortar até investigações sobre o efeito do aquecimento global, deixando de lado qualquer ação séria a respeito.

Numa palavra, o declínio americano pode talvez ser travado se abandonarmos a esperança pela sobrevivência decente, perspetivas demasiado reais, dado o equilíbrio de forças no mundo.

Perdendo” a China e o Vietname

Deixando de lado esses pensamentos desagradáveis, um olhar atento para o declínio americano mostra que a China na verdade desempenha nele um grande papel, o mesmo que desempenha há 60 anos. O declínio que agora gera tanta preocupação não é um fenómeno recente. Remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA possuíam metade da riqueza do mundo e dispunham de uma segurança incomparável e de um alcance global. Os estrategistas estavam naturalmente bastante conscientes da enorme disparidade do poder e pretendiam mantê-lo assim.

O ponto de vista básico foi apresentado com admirável franqueza num importante documento de 1948. O autor era um dos arquitetos da Nova Ordem Mundial da época, o representante da equipe de Planeamento Político do Departamento de Estado dos EUA, o presidente do Escritório de Planeamento Político do Departamento de Estado, o respeitado estadista e académico George Kennan, um pacifista moderado. Ele observou que o objetivo político central era manter a “posição de disparidade” que separava a nossa enorme riqueza da pobreza dos outros. Para alcançar esse objetivo, advertiu, “deveríamos deixar de falar de objetivos vagos e... irreais, como os direitos humanos, a elevação dos níveis de vida e a democratização”, e devíamos “lidar com conceitos estritos de poder”, não “nos atrapalhando com slogans idealistas” a respeito de “altruísmo e a melhoria do mundo”.

Kennan estava a referir-se especificamente à Ásia, mas as observações dele generalizam-se, com exceções, aos participantes do atual sistema global dominado pelos EUA. Ficou bastante claro que os “slogans idealistas” deveriam ser mencionados sobretudo quando se referiam aos outros, inclusive às classes intelectuais, que se esperava que os aplicassem.

Os planos que Kennan ajudou a formular e a implementar davam como certo o controlo dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental, sobre o Extremo Oriente, sobre o ex-império britânico (incluindo os incomparáveis recursos energéticos do Médio Oriente), e sobre o máximo possível da Eurásia, sobretudo os seus centros comerciais e industriais. Estes não eram objetivos irrealistas, dada a distribuição do poder. Mas o declínio começou de imediato.

Em 1949, a China declarou independência, um evento conhecido no discurso do Ocidente como “a perda da China” – nos EUA, com amargas recriminações e discussões sobre quem tinha sido o responsável por ela. A terminologia é reveladora. Só é possível perder aquilo que se teve. A assunção tácita era que os EUA possuíam a China, por direito, juntamente com a maioria do resto do mundo, tanto como assumiam os estrategistas do pós-guerra.

A “perda da China” foi o primeiro grande passo do “declínio americano”. Teve consequências políticas fundamentais. Uma delas foi a decisão imediata de apoiar o esforço francês de reconquista da sua ex-colónia da Indochina, para que esta também não fosse “perdida”.

A Indochina em si não era motivo de preocupação maior, a despeito das afirmações do presidente Eisenhower e outros sobre as suas riquezas naturais. A preocupação era mais a “teoria do efeito dominó”, que é frequentemente ridicularizada quando os dominós não caem, mas permanece um princípio fundamental da política, porque é bastante racional. Para adotar a versão de Henry Kissinger, uma região que escapa do controlo pode tornar-se um “vírus” que irá “espalhar o contágio”, induzindo outros a seguir o mesmo caminho.

No caso do Vietname, a preocupação era que esse vírus do desenvolvimento independente pudesse infetar a Indonésia, que tem efetivamente ricos recursos. E isso podia levar o Japão – o “superdominó”, como lhe chamava o proeminente historiador da Ásia John Dower – a “acomodar-se” a uma Ásia independente como o seu centro tecnológico e industrial, num sistema que escaparia ao alcance do poder dos EUA. Isso significaria, com efeito, que os EUA teriam perdido a fase do Pacífico da Segunda Guerra, que foi travada para evitar que o Japão estabelecesse essa Nova Ordem na Ásia.

O modo de lidar com um problema como este é claro: destruir o vírus e “inocular” aqueles que pudessem ser infetados. No caso do Vietname, a escolha racional era destruir qualquer esperança de desenvolvimento independente bem sucedido e impor ditaduras brutais nas regiões circundantes. Essas tarefas foram levadas a cabo com sucesso – embora a história tenha a sua própria astúcia, e algo similar ao que se temia desenvolveu-se desde então na Ásia Oriental, para consternação de Washington.

A vitória mais importante das guerras da Indochina deu-se em 1965, quando um golpe de estado militar apoiado pelos EUA na Indonésia, liderado pelo general Suharto, cometeu crimes maciços comparados pela CIA aos de Hitler, Estaline e Mao. A “assombrosa carnificina de massas”, como foi descrita pelo New York Times, foi corretamente relatada pelos meios dominantes, e com euforia irrestrita.

Foi um “brilho de luz na Ásia”, como observou o comentador liberal James Reston, no Times. O golpe pôs fim à ameaça de democracia ao demolir o partido político das massas de pobres, estabelecendo uma ditadura responsável pelas piores violações aos direitos humanos no mundo, e deixou as riquezas do país abertas aos investidores ocidentais. Poucos questionaram que depois de tantos horrores, inclusive a quase genocida invasão de Timor Leste, Suharto fosse bem recebido pela administração Clinton, em 1995, como “o nosso homem”.

Anos após os grandes eventos de 1965, McGeorge Bundy, conselheiro para Assuntos de Segurança Nacional de Kennedy e de Johnson, refletia que teria sido sensato acabar com a guerra do Vietname nessa altura, com o “vírus” virtualmente destruído e o dominó solidamente em pé, apoiado noutras ditaduras apoiadas pelos EUA em toda a região.

Procedimentos semelhantes foram rotineiramente seguidos noutros lugares. Kisssinger referia-se especificamente à ameaça da democracia socialista no Chile. Essa ameaça acabou noutra data esquecida, que os latino-americanos chamam de “o primeiro 11 de setembro”, que excedeu em muito o 11 de Setembro assinalado no Ocidente em termos de violência e efeitos nefastos. Foi imposta uma terrível ditadura ao Chile, como uma parte da praga de repressão brutal que se espalhou pela América Latina, chegando à América Central sob Reagan.

Esses vírus também despertaram preocupações profundas noutros lados, inclusive no Médio Oriente, onde a ameaça de um nacionalismo secular tem frequentemente preocupado os estrategas britânicos e norte-americanos, induzindo-os a apoiar o fundamentalismo radical islâmico para contrariá-lo.

A concentração de riqueza e o declínio americano

Apesar dessas vitórias, o declínio americano continuou. Por volta de 1970, a parcela detida pelos EUA da riqueza do mundo tinha caído para 25%, que se mantém até hoje, ainda colossal mas bastante inferior à do fim da Segunda Guerra. Nessa época, o mundo industrial era “tripolar”: os EUA, a Europa, com base na Alemanha, e a Ásia Oriental, já então a região industrial mais dinâmica, naquele tempo com base no Japão, mas que hoje inclui as ex-colónias japonesas Taiwan e Coreia do Sul, e mais recentemente a China.

Por volta desse período, o declínio americano entrou numa nova fase: a do declínio conscientemente autoinfligido. Desde os anos 70 houve mudanças significativas na economia dos EUA, à medida que os estrategas, do setor privado e do Estado, a conduziram para a financeirização e para a produção offshore, provocada em parte pelo declínio da taxa de lucro na indústria doméstica. Essas decisões deram início ao círculo vicioso no qual a riqueza se tornou altamente concentrada (de forma dramática nos 0,1% mais ricos da população), levando à concentração de poder político, que aprovou por seu lado uma legislação para levá-lo mais longe, no que diz respeito à tributação e outras políticas fiscais, à desregulação, às alterações das regras da administração empresarial, para permitir altíssimos ganhos aos executivos, e por aí vai.

Enquanto isso, para a maioria, os salários reais ficaram maioritariamente estagnados e ao povo só restou aumentar a carga laboral (muito além da europeia), a dívida insustentável e as repetidas bolhas, desde os anos Reagan, criando riquezas de papel que desapareceram inevitavelmente quando a bolha estourou (e os seus responsáveis foram resgatados pelos contribuintes). Em paralelo, o sistema político foi crescentemente retalhado, enquanto ambos os partidos cada vez mais penetravam nos bolsos das grandes empresas, com a escalada do custo das eleições, chegando os republicanos ao nível do absurdo e os democratas (hoje largamente os “ex-republicanos moderados”) não muito atrás.

Um estudo recente do Instituto de Política Económica, que tem sido a maior fonte de dados credíveis sobre estas questões, intitula-se Failure by Design (Fracasso por Encomenda). A frase “by design” é adequada. Era certamente possível fazer outras escolhas. E como mostra o estudo, o “fracasso” tem um corte de classe. Não há fracasso para os “designers”. Longe disso. Mas as políticas são um fracasso para a imensa maioria, os 99% na imagem dos movimentos Occupy – e para o país, que tem declinado e vai continuar a fazê-lo sob estas políticas.

Um fator importante é a transferência da produção para o exterior. Como ilustra o exemplo dos painéis solares, mencionado acima, a capacidade industrial fornece a base e o estímulo para a inovação, levando a produção, o design e a invenção a estágios mais elevados de sofisticação. Também isso está a ser subcontratado, o que não é um problema para os “mandarins do dinheiro”, que cada vez mais delineiam a política, mas é um problema sério para o povo trabalhador e as classes médias, e um desastre real para os mais oprimidos, os afro-americanos, que nunca escaparam do legado da escravidão e de sua mais feia consequência, e cuja magra riqueza virtualmente desapareceu depois do colapso da bolha imobiliária, em 2008, dando origem à mais recente crise financeira, a pior até agora.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Publicado em:

http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/02/2012215773268827.html

Sobre o/a autor(a)

Linguista, filósofo e activista político americano
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Comentários

Isso do PIB per capita é um pouco enganoso porque não avalia a riqueza que cada um tem, pode ser facilmente distorcido, por exemplo:
No país A 5 pessoas recebem 1000€ de ordenado, então o PIB per capita é de 1000€.
No país B 4 pessoas recebem 100€ de ordenado mas 1 recebe 20.000€, o PIB per capita é de 4080€.
Assim parece que o país B é rico e que as pessoas ganham todas um bom ordenado o que é mentira. O mesmo se passa nos EUA, se excluirmos o 1% da população americana que é composta por bilionários, o seu PIB per capita fica bem mais baixo.

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