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“Livro”, de José Luís Peixoto

Livro é já outra coisa, sim, mas continua o trabalho do José Luís Peixoto: a atenção à luta pela sobrevivência nos seres que podem amar. Por Jorge Costa
José Luís Peixoto numa sessão de autógrafos no pré-lançamento da sua nova obra, "Livro" na gráfica da Porto Editora, 14 setembro 2010, na Maia. Foto de Estela Silva/Lusa

Quando me pediu para apresentar o seu Livro, o José Luís Peixoto mandou-me um pdf para imprimir, mas demorei um bocado a começar a lê-lo. Sabia, porque ele me disse, que o início do romance era o abandono de um miúdo de seis anos pela mãe. Várias vezes olhei para aquela meia resma A4 sem lhe pegar. O José Luís tem um filho de seis anos, e eu temi pelo modo como pudesse ter escrito esse arranque. Eu tenho um filho, quase dessa idade, e temi pelo modo como o pudesse ler.

Por esta altura estão vocês a pensar: aí vem o José Luís Peixoto da orfandade e da perda. Calma. Este Livro tem Morreste-me, nessas horas atónitas da criança deixada à beira da fonte. Tem Nenhum Olhar, no regresso ao silêncio, aos esquecidos do campo sob a ditadura dos proprietários. Tem Cemitério de Pianos, na erupção do desejo contra todas as probabilidades. Tem até Uma Casa Na Escuridão, no interesse pelas origens da maldade – a solidão absoluta, a morte em vida. Este Livro tem o encantamento de sempre pela humanidade e portanto pela fantasia, incluindo o encantamento do José Luís Peixoto pelo seu próprio percurso de rapaz que quis ser escritor e de homem que quer ser escritor.

Dito isto, ficam também sabendo que poucas páginas bastam para constatar que este Livro é já outra coisa.

Sem nada de romance histórico, este Livro vira-se para a história recente de Portugal. Concentra-se nos percursos de meia dúzia de personagens do universo da emigração portuguesa para França. Livro sai então da nossa história, do trabalho, da guerra, dos que fugiram daqui e dos que fugiram para aqui. Cabe dizer que, felizmente, nesta atenção e nesta escolha, o José Luís Peixoto não está sozinho entre os que hoje escrevem em Portugal.

Em 1971, num ensaio importante - "Pensar Portugal Hoje" - João Martins Pereira falava de "uma forma de contestação indiscutivelmente poderosa, a fuga", com efeitos económicos devastadores. Fruto da emigração e da guerra, a população trabalhadora do país em 1973 estava ao nível de 1960, 3 milhões e meio. Entre 1966 e 1973, emigraram cerca de 100 mil pessoas por ano. É mais de um milhão e meio de portugueses, metade deles a caminho de França. Houve anos em que Portugal foi mesmo o único país europeu em que diminuiu a população activa.

De que fugia esta gente? As razões da fuga eram muitas, e para o mostrar basta a meia dúzia de vidas deste Livro. Mas há duas razões principais: a pobreza extrema, em primeiro lugar. Nos anos 60, comparado com a média dos doze países europeus mais desenvolvidos, o rendimento de cada português pouco passava de um terço. Ao longo de quase todo o século XX, a fome é parte da paisagem rural e das periferias urbanas do país. Metade da riqueza nacional é detida por dez famílias, donas das 168 maiores empresas. Nas vésperas do 25 de Abril, um em cada três portugueses vivia com um consumo de proteínas inferior ao mínimo considerado vital.

Era neste país que o Estado gastava 40% do seu orçamento na guerra colonial (1970). Essa era a segunda grande razão de fuga: um exército gigantesco, equivalente a um esforço maior que o dos EUA na guerra do Vietname: 200 mil homens, mais de 2% da população. Quase um quinto dos convocados para combater em África, desertava.

Há muitas histórias dentro desta enorme fuga de um país-prisão. Além da fuga à polícia política, à fome, à guerra, cada história desta fuga é a história de uma pessoa. O que o Livro conta, não é a história de uma horda, de uma maré humana em direcção a Hendaya, mas sim o impulso exacto que leva meia dúzia de vidas para longe. Ao fazê-lo assim, o Livro é uma trama de desencontros iniciados numa pequena comunidade dominada, parte de um país submetido pelo Estado e fechado numa moral social conservadora e patriarcal – ela também uma forte razão de fuga.

Livro é já outra coisa, sim, mas é também continuidade no trabalho do José Luís Peixoto: a atenção à luta pela sobrevivência nos seres que podem amar.

 

Ao recusar o fio cronológico e ao viajar no século, este Livro propõe um tempo partido e um olhar quase sincrónico para 70 anos de vidas. Ou seja, para uma comunidade, existências que se condicionam e se tocam à distância de décadas. Com essa escolha, o José Luís lançar-nos por túneis e janelas, entre tempo lento (como o da penúria no campo) e vertigem para o tempo novo, rápido, do perigo, da esperança (a emigração).

Este tempo partido espanta. É o tempo encadernado, escreve com ironia. Otempo sem relógios, sem dias de calendário, sem estações, sem idade, sem agosto. José Luís Peixoto domina completamente este Livro e a sua escrita. E dá, aliás, uma transparente explicação desse poder no final.

Mas não é só essa mestria que explica que nunca nos sintamos perdidos. Pelo contrário: a submissão ao calendário, ao princípio-meio-e-fim, talvez tornasse este romance pouco menos que absurdo. O mesmo se passará, deixem-me dizer-vos, com a nossa vida, a que resta fora deste Livro: por estes dias, o que temos diante dos nossos olhos senão um passado novo que irrompe furiosamente?

Em França, deixada há muito pela Adelaide e pelo Ilídio, decorre hoje uma limpeza étnica em forma; ou em Portugal, numa caça aos pobres agora mesmo aberta e anunciada na TV: os mais pobres de entre nós, um milhão de pessoas, tratados como ladrões, convocados para que o Estado lhes vasculhe a miséria e para que a espalhe melhor. Esse tempo partido, em que a questão da sobrevivência volta sempre, é o nosso tempo.

Mas este Livro vive também a outra brecha do tempo, o futuro: o narrador nasce em Abril de 1974, o tempo acelerado e, para muitos, do regresso, terminada a guerra e emigrado agora o ditador. E é depois dessa brecha no tempo - já sem fome, agora é sempre Agosto - que Livro, o narrador, olha para trás e procura explicar-se. Vive outra vez como Livro, o seu nome e o seu discurso, passado reconstituído e completado pela imaginação, necessidade de começar outra vez, como um filho de emigrantes, entre Paris e a vila, fruto de mundos separados e de tempos sobrepostos: a mãe pôs o livro nas mãos do filho.

Essa existência intempestiva é portanto a de todos mas também a de cada um. No Livro, o José Luís Peixoto explora o convívio de tempos contrários, agora dentro de si: Ao fixar o reflexo dos meus olhos no espelho, já me pareceu muitas vezes que está outra pessoa dentro deles. Observa-me, julga-me, mas não tem voz para se exprimir. Será talvez eu com outra idade, criança ou velho: inocente, magoado por me ver destruir todos os seus sonhos; ou amargo, a culpar-me pela construção lenta dos seus ressentimentos.

 

Perante este objecto que percorre todo o romance até chegar às nossas mãos, pode haver a tentação de coisificar um livro-exercício, quem sabe até um livro-escola, como se este romance se fechasse num sentido exclusivo de mundo de literatura. É verdade que (desde o título) o autor alimenta essa tentação: O que quero dizer também é como este livro, mundo subjectivo, existente e inexistente, sugerido pelo significado das palavras. Por esta altura, já estará alguém aí a pensar: de tema “social”, lá vai o José Luís Peixoto entregue à forma. Calma. Voltemos ao início.

A mãe pousou o livro nas mãos do filho.

Que mistério. O rapaz não conseguia imaginar um propósito para o objecto que suportava. Pensou em cheirá-lo, mas a porta do quintal estava aberta, entrava luz, havia muita vida lá fora.

(Este texto resulta da intervenção proferida na Casa do Alentejo, em Lisboa, no dia 24 de Setembro, na apresentação do romance)

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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